domingo, 24 de abril de 2011

Cartas da Palestina 1



Bil'in, 22 de abril de 2011.


Impossível usar palavras para explicar o que senti e vivi hoje à tarde, na passeata contra o muro e a ocupação aqui em Bil'in, Palestina ocupada. Tem de viver a experiência pra saber como é. Você vai andando pela estrada estreita e asfaltada que corta o solo pedregoso do vilarejo quando de repente ouve um estampido e, com um pouco de sorte, vê um rastro de fumaça no céu. Acompanha-o com o olhar e nota, à frente, uma bomba de gás pimenta + outras substâncias químicas que ninguém sabe quais são. Se não tiver sorte, a bomba cai a sua frente, do seu lado, atrás ou em você. Aí, só seu metabolismo sabe o que acontecerá: se você escapa dessa, desmaia, cai ou enfarta.

Você sabe que o inimigo está em algum lugar, mas... onde? As bombas vêm da esquerda -- se você estiver indo em direção à cerca com que Israel divide a vila --, mas o inimigo esconde-se do outro lado da elevação que margeia a estrada, do lado esquerdo. Subi a elevação para tentar vê-lo, mas não consegui ir muito longe. As bombas me cegavam de fumaça e lágrimas, a garganta estava seca, o pulmão ardia, a cabeça zonzeava. Segui o conselho de um colega jornalista, fotógrafo francês, e dei meia-volta.

Mas então o ataque das bombas diminuiu de intensidade e decidi caminhar diretamente para a cerca, onde os soldados israelenses já se postavam, metralhadoras em punho. Um grupo de franceses e uma dinamarquesa me acompanharam. Carregávamos as bandeiras dos nossos países para mostrar que, se eles nos acertassem, haveria um conflito internacional, ao menos na diplomacia.

Já na cerca, comecei a conversar com eles, em inglês. Pedi para que dissessem aos colegas à nossa esquerda que parassem de atirar. Não estávamos armados; fôramos até ali em missão de paz. Queríamos tê-los como vizinhos, não como inimigos. Queríamos, todos, viver bem e com dignidade. Queríamos que eles, em vez de armas, carregassem filhos nos braços (são todos muito jovens) e soubessem que o presente e o futuro deles e das gerações seguintes seria diferente, sem violência nem violação de direitos.

Palavras sem sentido para muitos dos soldados -- aqueles aos quais a lavagem cerebral já fez efeito. Mesmo assim, apostei na humanidade deles, isto é, naquilo que existe de solidário e respeitoso dentro de cada um. Um senhor francês me seguiu no apelo. Ao menos eles não atiraram em nós. E pararam de jogar a água fétida, de cuja composição não temos a mínima ideia.

Quando voltávamos pela estrada, na direção da cidade, os soldados da esquerda voltaram a atacar, dessa vez ainda mais. Quando saí do meio da fumaça, achei que fosse cair. As duas ambulâncias que nos acompanhavam ligaram as sirenes e avançaram. Já tinham atendido outros ativistas, intoxicados. Um foi parar no hospital e ainda não tenho notícias dele. Carros de ativistas chegavam, para ajudar quem não aguentasse mais seguir a pé. Fui salva por um Fiesta vermelho, modelo antigo, batido e com pintura velha, dentro do qual um senhor e seus dois filhos carregavam dois recipientes de isopor branco com tampa azul. Era sorvete. Um ativista palestino, ao me ver pálida, de olhos vermelhos, me deu um sorvete na hora. O gelado na boca, o gelo derretido, o sabor, o açúcar, me deram glicose e aliviaram meu mal-estar. Repassei a casquinha para uma amiga italiana, que subia a ladeira tão mal quanto eu surgira ali, momentos antes.

Não batemos em retirada. Ficamos ali, aguardando os palestinos, que pareciam muito à vontade em meio à fumaça dos gases e aos jatos de água de cheiro insuportável. Desafiavam os soldados -- que, diante da numerosa participação de ativistas internacionais, não usaram balas de verdade nem de borracha, como costumam fazer --, levavam chutes, coronhadas, eram derrubados. E tudo isso por quê? Porque queriam entrar nas próprias terras, confiscadas pelos governos israelenses.

Inspirado na praça Tahir, Abdullah subiu num dos caminhões do exército israelense, para surpresa dos soldados. Conseguiu escapar. Dessa vez. Fiquei muito brava. A Palestina precisa de líderes, não de mártires. Já chega de mortes. Sem liderança não se constrói um Estado. E o palestino está chegando, ali, na curva para setembro.


1 comentários:

  1. Encontrar o seu blog parece que foi coisa do destino... primeiramente gostaria de parabeniza-la pela bravura e pela dedicacao a causa palestina. Eu sou estudante de ciencias sociais da Universidade Federal da Bahia e ja ha algum tempo venho (por conta propria) estudando sobre a ocupacao sionista em terras palestinas. Eu tenho interesse em poder fazer algo, em poder ir para ai e fazer algum tipo de trabalho voluntario que seja... mas nao tenho muito conhecimento de como funcionam as coisas por ai. Fui na comunidade islamica da Bahia e nao houve ninguem que soubesse me informar sobre isso em especifico... estou disposto a pegar um aviao e ir ate ai passar uns meses como voluntario, mas sequer sei se preciso de visto ou algo assim... ha algum numero de telefone que possa ligar ai na Palestina para me comunicar contigo? Se possivel, prefiro que envie informacoes pelo meu e-mail.... nao sei se 'e muito seguro falar sobre isso aqui num blog onde todo mundo pode ver.... agradeco desde ja pela ajuda.
    fernandosalmeida@yahoo.com

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