sábado, 26 de março de 2011

"Eu prendo e arrebento"

por Baby Siqueira Abrão

Como todos aqueles que têm mais de 40 anos se lembram, a frase que dá título a esta postagem foi dita pelo general João Batista de Figueiredo. Quando lhe perguntaram o que faria com aqueles que não quisessem a abertura política do regime militar, a resposta foi rápida: "Eu prendo e arrebento". Frase exemplar. Digna dos oficiais que impuseram uma ditadura violenta ao povo brasileiro durante mais de 20 anos.
Essa frase me veio à mente quando li, no jornal liberal israelense Haaretz, algumas notícias que mostram quanto os sionistas estão apavorados com o isolamento a que eles mesmos se submeteram. Ao transformar Israel num Estado-bunker, terrorista, fora da lei, marginal, os sionistas provocaram na opinião pública mundial indignação, repúdio e um questionamento muito sério acerca da criação daquele país. Há um movimento mundial crescente que afirma a ilegalidade e a ilegitimidade do processo que levou à formação de Israel.
Segundo uma pesquisa encomendada pelo governo sionista em 2010, a maioria da população mundial faz pesadas críticas àquele Estado e o considera responsável pela situação do Oriente Médio. Isso levou uma empresa especializada em branding, também contratada pelo governo sionista, a propor um projeto que tornasse Israel mais simpático ao público internacional. O "batizado" dos mineiros chilenos no rio Jordão e as páginas dos oficiais do exército israelense no Facebook -- nas quais eles procuram ser simpáticos e afirmam não ser verdade o que "dizem" deles -- fazem parte desse projeto. O problema, para eles e para o projeto que visa dar a Israel um rosto "simpático", é que a realidade os desmente.
Qualquer pessoa que, como eu, acompanhe o dia a dia palestino e israelense conhece a opressão que os sionistas impõem aos palestinos e a seu próprio povo. E qualquer pessoa que tenha estudado o sionismo sabe que o roubo de terras palestinas, a limpeza étnica, a militarização, a violência como método está nas raízes desse movimento colonialista. Portanto, além da realidade, a história desmente as tentativas de melhorar a "marca" sionista. Trata-se, sem meias palavras, de um movimento neonazista -- como, aliás, eles já tinham anunciado a Hitler, em carta enviada ao Führer e citada pelo judeu Lenni Brenner em dois de seus livros.
Nesse início de 2011, porém, o desespero dos sionistas, provavelmente aumentado pelas rebeliões nos países árabes e a perda do pouco apoio (comprado a peso de ouro, opressão e armamentos) que eles tinham no Oriente Médio, chegou ao auge. Depois de enviar ao Parlamento projeto de lei que institui Israel como "Estado judeu", ao qual todo residente deve jurar lealdade, seja ele muçulmano, cristão, ortodoxo, ateu; depois de considerar inimigas as pessoas e ONGs que, em solo israelense e fora dele, adiram ao movimento BDS (boicote, desinvestimento e sanções a Israel, como forma de acabar com o apartheid naquele país), denunciem violações aos direitos humanos ou simplesmente expressem sua discordância da política sionista; depois de proibir os palestinos de rememorar a Nakba, a tragédia da partilha da Palestina e a consumação da perda da maioria de seu território para o sionismo; agora os sionistas mostram que, definitivamente, a imaginação psicopática não tem limites.
O Haaretz de 21 de março revelou que foi criada uma divisão, na Inteligência Militar israelense, para investigar e monitorar organizações "de esquerda" que defendam o BDS, que imputem crimes de guerra ou acusações similares aos altos oficiais israelenses e que questionem a legitimidade do Estado sionista, advogando seu fim. Os primeiros alvos são as ONGs que coordenam as flotilhas, destinadas a quebrar o bloqueio imposto a Gaza por Israel -- um bloqueio já considerado ilegal e desumano. Como, para Israel, a ilegalidade tem uma conotação própria, diferente do resto do mundo, os sionistas acusam a flotilha de ser ilegal e, portanto, de estar sujeita a ataques militares, como o que matou 19 ativistas turcos em 31 de maio de 2010 e encarcerou centenas de pacifistas então a bordo do navio Mávi Mármara.
Para que o ataque não fosse visto pelo mundo como realmente aconteceu, os sionistas cortaram o sinal do satélite pelo qual eram feitas as comunicações da flotilha com o restante do planeta e prepararam cuidadosamente fotos, vídeos e áudios com a versão sionista dos fatos. Também tiveram o cuidado de confiscar câmeras e celulares do pessoal do Mávi Mármara, para que nenhuma prova houvesse do barbarismo do ataque. Infelizmente para eles, estava a bordo uma equipe de reportagem da Al Jazeera, que, prevendo o corte do sinal do satélite, já operava em outra banda e mostrou, ao vivo, em tempo real, as cenas chocantes do ataque israelense ao navio. Também  infelizmente para eles, estava a bordo a cineasta brasileira Iara Lee e sua equipe, que não apenas filmaram o ataque, desde o começo, como tiveram a presença de espírito de retirar o chip (ou fita?) de filmagem e costurá-lo na cueca de um dos integrantes da equipe, impedindo que os sionistas soubessem dele e o confiscassem. As imagens captadas por Iara e pela Al Jazeera falam por si e estão na internet para quem quiser ver.
Essas imagens desmentiram categoricamente a versão sionista de que as forças navais israelenses atacaram para se defender e para evitar que "terroristas" levassem a Gaza "armas" como lápis, cadernos, bolinhas de gude, estilingues. Os próprios sionistas fizeram fotos dessas "armas" e as distribuíram ao mundo, sendo, por isso, motivo de chacota em todo o planeta. A mídia sob domínio sionista também entrou em ação, distribuindo vídeos, áudios e fotos preparados em laboratório para incriminar os participantes da flotilha. Infelizmente para eles, seus atrapalhados agentes não dominam as técnicas dos photoshops nem têm noção de timing propagandístico, o que levou o mundo a descobrir as grotescas falsificações. Sem contar que o pessoal do Mávi Mármara contou uma única versão dos fatos -- porque todos eles os viveram em alto-mar --, numa prova incontestável das mentiras sionistas. Pegou mal, muito mal para o sionismo.
Mais: o Parlamento israelense (Knesset) aprovou na terça-feira, 22 de março, duas leis polêmicas. A primeira cria "comitês de admissão" na Galileia e no Negev. Compostos de cinco membros -- duas pessoas da comunidade local, uma da Agência Judaica, uma de algum movimento "relevante" de assentamentos (colônias) e uma do conselho regional ao qual a comunidade está subordinada --, os comitês vão decidir se aceitam ou rejeitam novos moradores em suas comunidades. Eles podem ser rejeitados se forem menores, se não tiverem "meios econômicos" para estabelecer um lar, se não tiverem a intenção de "basear sua vida doméstica" na comunidade (seja lá o que isso signifique), se uma avaliação profissional indicar que eles não combinam com o estilo de vida da comunidade ou se não forem adequados à estrutura sociocultural local. Critérios, como se vê, nada objetivos, que tornam ainda mais grave o apartheid já existente da população árabe, além de incluir na lista de persona non grata casais homoafetivos, pessoas que vivem sozinhas e imigrantes, entre outros.
A segunda lei, a "Lei Figueiredo", proíbe a concessão de verbas públicas (de fundos constituídos com dinheiro público, dos israelenses, não dos sionistas) a instituições "patrocinadoras" de atividades que "neguem o status de Israel como Estado democrático e como Estado do povo judeu". É a velha história: ou você aceita que Israel é uma democracia judaica ou os sionistas te prendem e te arrebentam. É assim a democracia sionista, camarada: neonazismo em estado puro.
É por esses e por outros absurdos que o Haaretz, em editorial publicado em 23 de março e assinado por Sefi Rachlevsky, pede o fim do regime. Atenção: do regime, não do governo, o que tem implicações muito mais sérias. Do contrário, escreve Rachlevsky, a Nakba israelense -- outra Nakba a pesar nos ombros sionistas -- chegará antes do que se imagina.


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