sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Por dentro dos túneis de Gaza

A repórter Nicole Johnson, da rede de TV Al Jazeera, num dos túneis que ligam Gaza ao Egito. Passar por eles é colocar a vida em risco: a qualquer momento, uma bomba israelense pode explodir os túneis... e os homens que fazem dele o seu meio de vida.

Fala-se muito, aqui no Ocidente, nos túneis que ligam Gaza ao Egito. Eles dão vida ao comércio de produtos cuja entrada legal na faixa costeira é proibida por Israel. Segundo os sionistas e sua mídia, por eles passam as "armas" que o Irã supostamente enviaria ao Hamás há muito tempo. Bobagem. Se isso fosse verdade, o Hamás já teria invadido e dominado, no mínimo, o sul israelense. Aliás, se fossem verdadeiras as acusações que a propaganda sionista faz ao grupo de resistência palestina, Israel inteiro estaria sob o comando do Hamás.


A verdade é que o sionismo dá ao Hamás um poder que ele não tem. Por quê? Porque, enquanto fingir que considera o Hamás um risco à segurança israelense, o governo de Israel pode satanizá-lo à vontade e mantê-lo na lista dos "terroristas" que representam perigo ao mundo. Pode atacar Gaza, aterrorizar seus habitantes e assassiná-los, alegando motivos de "segurança nacional". No fundo, "Hamás" é uma espécie de senha, de palavra mágica que os sionistas usam para tentar legitimar seus atos criminosos em Gaza e na Cisjordânia (para onde, dizem eles, membros do grupo de resistência vão a fim de realizar atentados que ninguém vê). Outro motivo é que, demonizando o Hamás, os sionistas atingem também o Irã, considerado o principal apoiador do grupo palestino.


Em 2 de fevereiro, no debate na Folha, o sionista Jorge Zaverucha explicou que Israel não pode deixar entrar cimento em Gaza -- necessário para reconstruir casas e escolas destruídas no ataque militar de 2008-2009 -- porque ele poderia ser "desviado" para a construção dos túneis. Pode-se argumentar que Israel não tem nada com isso e que a população de Gaza é que decide como usar o material que lhe chega. É verdade. Mas pode-se também mostrar o que são esses túneis, para que o Ocidente não os imagine à imagem e semelhança das sofisticadas soluções da engenharia e da arquitetura ocidentais.


Você vai ver a excelente reportagem que a excelente jornalista Nicole Johnson, da Al-Jazeera, fez num dos túneis. Assista e testemunhe mais um motivo pelo qual não devemos dar ouvidos à propaganda sionista. E lembre-se: aquele é o ambiente de trabalho de dezenas de palestinos. Com o bloqueio, esse tipo de comércio prospera, elevando o preço dos produtos e criando uma classe de comerciantes "ricos" em Gaza -- ressaltando que, naquele pedaço do mundo, ser "rico" corresponde a pertencer à classe média ocidental. Esse comércio também dá emprego e salário a palestinos que, sem ele, não teriam como alimentar suas famílias. Nesse contexto, arriscar diariamente a vida não passa de mero detalhe.


A tradução é minha. Fiz adaptações para que o texto ficasse inteligível em português, mas sem alterar o relato de Nicole.

Um "rico" comerciante de Gaza: proprietário de um túnel, ele conta com o trabalho dos meninos em segundo plano, que atravessam as passagens subterrâneas diariamente. Muitos deles vivem em barracas que servem de depósito aos produtos contrabandeados, em Rafah.


Esta pia de banheiro, no Egito, esconde a passagem para um túnel que leva a Gaza. A passagem encontra-se sob o piso, dentro do armário. Basta tirar as madeiras que a cobrem e entrar no poço que leva ao túnel, no subsolo.
"Fazer uma reportagem num túnel que liga Gaza ao Egito parecia uma boa ideia. Entramos nele e, quando estávamos a meio caminho dos 450 metros que iríamos percorrer, as luzes se apagaram.
As matérias sobre os túneis entre Egito e Gaza geralmente apresentam algumas fotos da entrada e os primeiros 50 a 100 metros da passagem.
Mas queríamos mostrar o local exato da grossa parede de aço que os palestinos conseguiram atravessar.  Essa é uma das paredes que o Egito tem martelado na areia para tentar quebrar o contrabando de produtos para Gaza.
Isso significava que precisaríamos rastejar ao longo de todo o caminho, até a fronteira egípcia.
Há alguns túneis grandes o suficiente para dar passagem a um carro. Nós não tiveram tanta sorte. Nosso túnel não tinha mais do que 1,5 m de altura. Para ir até a fronteira, teríamos de rastejar, andar de quatro.
Dois "guias", o cinegrafista e eu iniciamos nosso trajeto através do túnel com luz fornecida por cabos de eletricidade pendurados acima de nossas cabeças. A eletricidade, porém, não se manteve por muito tempo. Então, contamos com as fracas luzes de nossos telefones celulares para iluminar o caminho.
Foi um rastejar escuro e silencioso.
No ano passado, cerca de 1.200 túneis estavam em operação. Hoje [junho de 2010] esse número caiu para cerca de 400.
O Egito tentou impedir o comércio via túnel no final do ano passado, colocando muros de aço maciço no subsolo. Mas seria preciso mais do que isso para parar os comerciantes. Eles usam oxigênio e queima de gás para cortar o aço.
E assim o comércio de bens floresce. Geladeiras, geradores, fornos de microondas, alimentos, peixe [Israel proibiu os pescadores palestinos de ir até o ponto do mar onde há peixes] e cigarros vêm através dos túneis. Israel alega [mas nunca conseguiu provar] que o Hamás também usa os túneis para o contrabando de armas e dinheiro.
Depois de 30 minutos que mais pareceram três horas, chegamos à parede subterrânea de aço, na fronteira com o Egito. Havia um buraco nela, e por isso era possível rastejar até o Egito. Mas só conseguimos chegar até ali.
Os contrabandistas dizem que o Egito envolve a parede de metal com areia para torná-la vulnerável a quedas. Decidimos não ficar ali por muito tempo.
Depois de 30 metros rastejando para trás, paramos. Nossos guias nos disseram que pegaríamos um "trem" para alcançar a entrada do túnel. Nós não os levamos a sério e ficamos pensando no que eles realmente queriam dizer com aquilo.
Mas, fiel à palavra, três minutos depois o trem chegou. 
Era um carro de plástico preto grosso, ligado à entrada do túnel por um cabo. Pulamos dentro dele e nos agachamos, nossas cabeças entre as pernas.
A câmera continuava filmando, levada por um dos "guias", que estava na frente do carro.
Eu só esperava que o trem não descarrilasse...
Sete minutos depois, uma viagem que eu nunca vou esquecer tinha terminado.
Estávamos de volta à entrada do túnel, com todo mundo a salvo. Fomos içados do poço para a superfície, onde encontramos um Sol ofuscante.
Fora dos limites de Gaza, o Egito segue enfiando na areia o muro de aço, martelando grossas colunas no chão.
Parece um desperdício de tempo. Assim que a nova parede bloquear o túnel, será cortada, dizem os contrabandistas.
Com o bloqueio de [Israel a] Gaza, o comércio dos túneis prospera e nem mesmo as paredes egípcias poderão detê-lo."


2 comentários:

  1. Olá Babi ! Meu nome é DAN , sou médico e colega de turma e amigo do peito do Nagib.
    Sou israelense, sionista e acima de tudo pacifista e ativista do movimento Shalom Ahshav ( paz já ). Tambem sou contra o muro e contra as colonias. Mas eu te questiono : como consseguir a paz com os palestinos ? Quem de fato os representa ? A Autoridade Palestina ? O Hamas ? Ou aquele grupo que matou o jornalista italiano Vittorio ? como assinar a paz com o Líbano, onde temos um estado dentro do estado que é o Hisbollah, com suas milícias, polícia e judiciário que não se reportam ao governo central ? como assinar a paz com a Síria, onde o Assad massacra seus opositores ? Aliás, eu pergunto : você já foi defender as populações não muçulmanas que estão sendo massacradas pelos muçulmanos no sul e oeste do Sudão ? Duvido.
    Israel segue sendo a única verdadeira democracia do oriente médio, onde há partidos árabes com seus deputados no Knesset e a imprensa é totalmente livre. Aproveito para sugerir que você entre no Youtube e veja uns vídeos de algumas cantoras israelenses como Sarit Hadad, Shiri Maimon, etc cantando músicas como Shir la Shalom ( música para a paz )é maravilhoso.
    Meu e-mail é dan.zimerman@uol.com.br e estou à disposição.
    Um grande abraço !!!

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  2. Oi, Dan!
    Os palestinos já deixaram claro: sem justiça -- o que significa o fim da ocupação, dos muros, das cercas; o retorno dos refugiados e compensação financeira por todas as perdas que eles sofreram -- não pode haver paz. E olhe: há anos a Liga Árabe ofereceu a Israel o reconhecimento e a paz aqui na Ásia ocidental em troca do que acabei de citar. Sucessivos governos sionistas disseram "não". Leia os Palestine Papers, no portal da Al Jazeera. Lá você verá que, ao contrário do que apregoa a propaganda sionista, é o próprio sionismo que não quer paz. E por quê? Porque não lhe interessa. A guerra lhes dá lucro, como stakeholders da indústria bélica. O confisco das terras palestinas para a construção de colônias ilegais lhes dá dinheiro, pois lavam dinheiro da máfia russa, segundo jornalistas europeus que acompanham o caso. Armas com novas misturas de substâncias químicas são testadas no povo palestino. Aqui mesmo no blogue vc encontrará uma postagem sobre isso.
    Não há democracia num país que pratica o apartheid. Vi com meus olhos, Dan, e tenho vivido isso diariamente -- não sei se vc sabe, mas estou morando na Palestina. Se vc estiver em Israel, proponho um longo bate-papo!

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