sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Egito abre uma nova era para a Palestina

Middle East Monitor (MEMO), 12/2/2011
Tradução de Baby Siqueira Abrão





O povo egípcio não poderia ter escolhido melhor data do que 11 de fevereiro de derrubar a ditadura de Mubarak. Foi em 11 de fevereiro de 1250 que o exército egípcio, liderado pelo sultão aiúbida Turanshah, derrotou a Sétima Cruzada, liderada pelo rei Luís IX da França. Não só isso: em 11 de fevereiro de 1949 o xeque Hassan Al Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, foi assassinado no Cairo. Mais recentemente, o grande lutador pela liberdade sul-africana, Nelson Mandela, foi libertado em 11 de fevereiro de 1990. Com a queda do regime de Mubarak, os egípcios estão prestes a escrever um novo capítulo em sua história e, de fato, em todo o Oriente Médio.
Ao longo das três últimas décadas o Egito foi o epicentro da coordenação EUA-Israel na região. Foi a partir do Cairo e de Sharm el-Sheikh, que uma nova geração de árabes e sionistas operaram. O papel central do Egito nessa empresa transformou o país em um posto avançado ocidental, em grande parte dependente da "ajuda" estadunidense em troca de proteção e apoio para a entidade sionista, do outro lado da Península do Sinai. O povo egípcio, para dizer o mínimo, não foi beneficiado. Ao contrário, foi submetido a um estado de emergência por 30 anos, perdendo, no processo, suas liberdades fundamentais de expressão, reunião e organização.
As condições políticas, sociais e econômicas do Egito foram reproduzidas em muitos outros pontos do Oriente Médio; daí o fato de o sucesso da revolução popular ter sido bem acolhido muito além das fronteiras do Egito, com as cenas de júbilo da Praça Tahrir ecoando em todas as capitais árabes. De Doha até Argel, onde os militares intervieram para evitar as celebrações, as pessoas foram às ruas para saudar o novo amanhecer.
Sem dúvida, o abalo do terremoto político no Egito tem sido mais sentido na vizinha Palestina. Sob Mubarak, o Egito foi um instrumento na manutenção de três atrocidades: o bloqueio à Faixa de Gaza, a divisão do movimento nacional palestino, e a colaboração, no que diz respeito à segurança, entre a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e a autoridade da ocupação israelense na Cisjordânia.
Com a remoção do eixo central – o déspota egípcio Mubarak –, há agora uma excitação por trás do cenário das atividades diplomáticas no sentido de "reiniciar as conversações de paz" entre Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu. Esses esforços devem ser vistos como são; não devem ser mal-interpretados como uma tentativa séria de resolver as questões principais. Eles nada mais são do que uma tentativa de tomar medidas de segurança preventiva para garantir que o terremoto da revolta popular não desestabilize o status quo. Como tem sido sempre o caso, a "estabilidade" dos regimes terão precedência sobre a democracia e os direitos humanos.
Duas mudanças significativas ocorreram desde que os protestos no Egito começaram. Em primeiro lugar, o muro do medo, construído pelo antigo regime, despedaçou-se de maneira irreversível. Em segundo lugar, a rede de inteligência regional coordenada a partir do Cairo e Tel Aviv foi danificado, talvez fatalmente. Somente o aborto da democracia nascente no Egito levará a um retorno ao passado, à opressão e à brutalidade. Yuval Diskin, chefe da Shabak, a agência de inteligência interna de Israel, disse que as regras do jogo mudaram. Assim, espera-se que haverá uma revisão urgente da situação na Cisjordânia para prevenir qualquer mudança ali. Apesar de sua colaboração total e absoluta com a ocupação israelense, as forças de segurança da Autoridade Palestina serão confrontadas com maiores exigências, o que, em última instância, pode revelar-se contraproducente.
Muitas das condições censuráveis do Egito estão presentes nos territórios ocupados da Cisjordânia, incluindo Jerusalém. O Movimento de Resistência Islâmica, Hamás, continuará a ser o principal alvo da repressão, e outros setores da sociedade civil palestina dificilmente serão poupados. Alunos e professores podem esperar o aumento da perseguição policial; há atualmente 70 estudantes da Universidade Nacional Najah, em Nablus, detidos nas prisões da ANP por motivos políticos. Se as observações de Diskin forem levadas a sério, haverá mais censura e controle sobre as facilidades da internet e do ciberespaço. Trabalhadores ainda são demitidos em consequência de suas supostas filiações políticas, e professores em Hebron travam uma disputa com o governo de Fayyad sobre cortes em seus salários. Advogados recusam serviços por causa da intimidação e dos ataques das forças de segurança. Enquanto isso, os civis continuam sendo julgados em tribunais militares, como no Egito sob Mubarak. Com esse combustível, será necessário um milagre para evitar a quase inevitável revolta popular.
A tempestade que se aproxima não vai ignorar Jerusalém, onde 60% dos palestinos vivem abaixo da linha da pobreza. Abandonados pela ANP, eles agora se defendem sozinhos da brutal ocupação israelense, que fez da limpeza étnica a pedra angular de sua política na cidade.
A primeira reação do governo israelense diante dos acontecimentos no Egito foi adotar uma mentalidade de bunker. O primeiro-ministro Netanyahu ordenou que a construção de um muro na fronteira com o Egito seja acelerada, e tem havido apelos para a reocupação do corredor de Filadélfia, ao longo da fronteira do Egito com Gaza e do Estado sionista. Tudo isso sugere uma solução baseada em segurança. É claro que os israelenses não parecem ter aprendido com o falho modelo egípcio, que, apesar de um notório aparato de segurança, não conseguiu deter o protesto do povo.
O fim do regime de Mubarak oferece uma nova oportunidade para o povo palestino. Os palestinos devem garantir uma liderança verdadeiramente representativa, capaz de proteger os interesses nacionais à frente de qualquer outro. Nunca, em sua história, foi tão extrema a necessidade de uma liderança que seja capaz de acabar com as divisões vergonhosas impostas de fora sobre o povo palestino. Se reiniciadas antes disso, as negociações com a entidade sionista resultarão em mais perdas e maior opressão na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Como Nelson Mandela disse uma vez: "Não existe liberdade parcial". A ANP nunca pode pretender ser verdadeiramente livre até que, e a menos que, fale e atue em nome de todos os palestinos. Ignorando os resultados da revolução no Egito e correndo de volta para a mesa de negociação com os israelenses, a ANP mostrará a todos que Mahmoud Abbas representa seus próprios interesses e não os interesses e os direitos do povo palestino.

Agradeço ao amigo palestino Mazen Manasseh o envio do linque do MEMO que contém esta análise. 

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