sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Matéria na Folha sobre o debate


O texto saiu hoje, à página A 16.



São Paulo, sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011 


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Debate evidencia falta de consenso no Oriente Médio

Evento promovido pela Folha discutiu conflito entre israelenses e palestinos

Defensores de ambos os lados discordaram em todos os pontos, desde a influência do islã até a existência de 2 Estados

DE SÃO PAULO 

O primeiro debate promovido pela Folha em 2011, sobre os conflitos entre palestinos e israelenses, funcionou como espelho dos problemas da região: defensores de um lado e do outro não concordaram em praticamente nenhum dos pontos abordados.
Participaram a professora de história árabe Arlene Clemesha, a pesquisadora Bernadette Siqueira Abrão, o colunista da FolhaJoão Pereira Coutinho e o cientista político Jorge Zaverucha. A discussão foi mediada por Rodrigo Russo, coordenador de Artigos e Eventos do jornal.

INFLUÊNCIA ISLÂMICA
Em um dos primeiros pontos de atrito entre os debatedores, logo no início, Zaverucha, autor do livro "Armadilha em Gaza", caracterizou o conflito no Oriente Médio como árabe-islâmico-israelense e afirmou que a ênfase maior na questão religiosa é um fator relativamente novo.
"O programa do Hamas [grupo que controla a faixa de Gaza] é um programa do islã: bandeira de Alá sobre cada centímetro da Palestina. Qualquer tentativa de acordo com Israel deve ser denunciada. É um jogo de soma zero: eu ou você", disse.
Clemesha, que dirige o Centro de Estudos Árabes da USP, contestou a avaliação: "Estamos falando besteira sobre o perigo islâmico. Não há choque de civilizações. O fundamentalismo é um dado da questão, mas ele não é só islâmico, é também judaico".
Para a professora, as atuais rebeliões no norte da África e no Oriente Médio não têm caráter religioso, e grupos como o Hamas estão dispostos a negociar. "Quando partidos como Hamas e Hizbollah tomam posição contra Israel, os motivos são políticos, não só religiosos."

IRÃ E HAMAS
Outra discordância se evidenciou logo à primeira menção do Irã e das declarações polêmicas de seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
Para Coutinho, não existe apenas um conflito na área, mas vários, que se anulam uns aos outros: Israel contra Autoridade Nacional Palestina, Hamas contra ANP e israelenses contra iranianos.
"O mais intratável hoje é Israel x Irã. Ahmadinejad já afirmou o desejo de riscar Israel do mapa. É proclamação genocida e deve ser tomada a sério, não ser subestimada."
Segundo o colunista, o grande problema da região hoje é a emergência de um Irã nuclear, "regime abertamente teocrático", e seu patrocínio ao Hamas. "A carta fundamental do Hamas exorta a destruir Israel. Nunca mostraram abertura para negociar, só para uma trégua."
Bernadette Abrão respondeu afirmando que a carta do Hamas foi escrita por uma pessoa só, sem discussão, durante a primeira intifada (levante palestino) e hoje não é aceita pelos próprios integrantes da organização.
"Hizbollah e Hamas não teriam surgido se não fosse o sionismo, inimigo que destrói e faz limpeza étnica no povo palestino", disse a pesquisadora, autora de livro sobre a história da filosofia.
Clemesha, por sua vez, disse que Ahmadinejad "não falou em destruir Israel com uma bomba, e sim que o regime deve deixar de existir".

UM OU DOIS ESTADOS?
A discussão de possíveis soluções para a crise no Oriente Médio também polarizou os participantes do debate no auditório daFolha.
Bernadette Abrão defendeu a existência de um único Estado para palestinos, judeus e cristãos e o "fim da entidade sionista" - o que, segundo ela, não deve ser confundido com fim dos judeus.
Coutinho avalia que o entendimento da comunidade internacional é favorável à existência de dois Estados, um israelense e outro palestino, e a história mostra que, em casos como Líbano e Iugoslávia, Estados binacionais (ou plurinacionais) resultaram em "desastre".
Zaverucha e Coutinho também apontaram a dificuldade de negociar com a "dupla liderança" dos palestinos, já que Hamas e Fatah (partido que comanda a ANP) estão em conflito.
Clemesha alegou que a divisão é fruto do boicote internacional a uma "eleição limpa", vencida pelo Hamas na faixa de Gaza, e que o corte no repasse de verbas fez a economia palestina ruir.
A plateia, de cerca de cem pessoas que lotavam o auditório da Folha, manifestou-se ruidosamente durante o debate, aplaudindo declarações de um lado e de outro, apesar de Jorge Zaverucha ter advertido para o que classificou de "clima de Fla-Flu".
As maiores reações seguiram-se a falas de Abrão, que afirmou haver um "lobby sionista" dominando a mídia e a indústria do entretenimento e disse que os judeus não detêm a "exclusividade da tragédia" do Holocausto.
A pesquisadora negou ligação entre antissionismo e antissemitismo. "Árabes são semitas. Não sou antissemita, sou antissionista até a morte." Para Coutinho, "quando há atentado, morrem judeus, não sionistas".



Meu comentário ao comentário do Coutinho: "Pois é... os sionistas não se incomodam com o fato de suas atitudes levarem seus conterrâneos à morte".

7 comentários:

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  2. Concordo com quase tudo. Só lhe pediria para deixar Maquiavel fora disso. Era um republicano, um homem decente. Um abraço.

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  4. Diga em que obra, edição, página. Nunca li isso em Maquiavel.

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  5. Não creio que você não tenha notado o trocadilho como jogo de metalinguagem na minha redação...

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  6. Novamente prefiro não acreditar que você desconhece esta recorrente interpretação d'O Príncipe. Não é minha, está em manuais de filosofia, de direito e de guerra que você pode facilmente localizar em livrarias ou na rede e até mesmo se contrapor a eles numa obra futura. Afirmar que os fins justificam os meios, que o governante deve ser amado e ser temido na mesma proporção e sua lição sobre o leão e a raposa, são forração para essa leitura de fazer-se enfraquecido para reunir forças em contra-ataque.

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