segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Israel e a maracutaia do jogo colonialista



Robert Fisk 
EUA-Israel: propina que fede a conciliação vergonhosa[1] 
20/11/2010, The Independent

Tradução: Coletivo Vila Vudu


“Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último” (Winston Churchill)2

Em qualquer outro país, a propina que os EUA ofereceram a Israel, e a relutância de Israel para aceitá-la, mesmo que em troca de uma reles suspensão temporária do roubo de propriedade dos árabes, seriam considerados escandalosos. 3 bilhões de dólares em aviões bombardeiros, para ‘comprar’ uma suspensão temporária na colonização da Cisjordânia, e só por 90 dias? Não inclui Jerusalém Leste – portanto, adeus à última chance de capital palestina na cidade santa; – e, se Benjamin Netanyahu assim o desejar, logo depois poderá retomar furiosamente as construções em terra árabe. No mundo comum e são no qual cremos viver, só há um nome para o que Barack Obama ofereceu: ‘arreglo’, conciliação vergonhosa, expressão que nossos senhores e mestres sempre usam com desdém e repulsa.

Quem cede ante a injustiça que um povo comete contra outro é dito “conciliador”
[2]. Quem espere a paz a qualquer preço, mesmo que ao preço de propina de 3 bilhões de dólares para o criminoso, é dito “conciliador”. Quem se acovarda ante o risco de defender a moralidade internacional contra a cobiça territorial de Israel é dito “conciliador”. Quando tantos de nós nos manifestamos contra invadir o Afeganistão, fomos execrados porque seríamos “conciliadores”. E também fomos execrados como “conciliadores”, quando nos opusemos à invasão do Iraque. Pois “conciliar” foi o que Obama tentou, nesse patético, inacreditável esforço, nessa súplica dirigida a Netanyahu, para que respeite a lei internacional só por 90 dias! Obama é conciliador, no sentido sórdido da palavra.

O fato de o Ocidente e as elites políticas e jornalísticas – e aí incluo o cada dia menos respeitável New York Times – aceitarem esse disparate como coisa normal, como se o disparate pudesse ser realmente apresentado como outro “passo” no “processo de paz”, para repor “nos trilhos” aquele delírio místico, é útil para avaliarmos a que ponto já avançou nossa loucura, em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio.

É indício de o quanto os EUA (e, porque fracassamos na empreitada de condenar essa insanidade, também a Europa) deixaram agigantar-se por lá o medo que têm de Israel – e de o quanto Obama deixou que se agigantasse nele o medo que tem dos apoiadores de Israel no Congresso e no Senado.

3 bilhões de dólares por três meses é um bilhão por mês, para suspender temporariamente o roubo de terras palestinas. É meio bilhão de dólares por quinzena. 250 milhões por semana. 71.428.571 de dólares por dia, 2.976.190 por hora e 49.603 dólares por minuto. E, como se o pote de ouro não bastasse, Washington continuará a vetar toda e qualquer Resolução da ONU que critique Israel ou que admita a criação de algum estado palestino. Que bom negócio! Já teria valido a pena invadir qualquer país só para por a mão numa bolada dessas! Em seguida, encenava-se a retirada! Imaginem então receber a mesma bolada, só pelo cavalheiresco movimento de não construir novas colônias ilegais e só por 90 dias – com plena autorização para avançar simultaneamente as construções ilegais em Jerusalém!

A versão de Hillary Clinton para essa palhaçada seria engraçadíssima, não fosse trágica. Na pena afiada de Roger Cohen do NYTLa Clinton persuadiu-se de que a Palestina é “alcançável, inevitável e compatível com a segurança de Israel”. E quem teria persuadido Madame Hillary de tal coisa? Ora... Aconteceu numa viagem a “capital” Ramallah da pseudo-Palestina, ano passado. E ela viu as colônias exclusivas para judeus – “a brutalidade da coisa atingiu-a com violência” – mas ela achava que sua comitiva estivesse sendo escoltada por soldados israelenses “porque são tão profissionais”. E aí, ta-ta-ta-ti-ti-ti, acabou por descobrir que estava sob escolta de militares palestinos, “muito profissionais”. – Isso mudou completamente a visão de mundo deMadame!

Sem considerar o fato de que o exército israelense é ralé e que os palestinos são massa de miseráveis, esse incidente na “estrada de Ramallah” fez com que os apoiadores de Madame, nas palavras de Cohen, constatassem que já acontecera uma transição: “da psique de autopiedade e autoflagelação dos palestinos, sempre se apresentando como vítimas, para uma nova cultura pragmática de autoafirmação e de construção de instituições”. O ‘primeiro-ministro’ palestino Salam Fayyad, educado nos EUA e, portanto, gente confiável, “pôs o crescimento acima das lamentações, as estradas acima da agitação, e a segurança acima de tudo.”

Sob brutal ocupação por 43 anos, os palestinos roubados, reduzidos à miséria, com os primos da Cisjordânia que vivem sem casa há 62 anos, afinal pararam de lamentar-se e lamuriar-se e puseram-se repentinamente a cultuar a única coisa que realmente importa no mundo. Não é a justiça. Com certeza não, tampouco, é a democracia. Mas o único Deus que Madame espera que cristãos, judeus e muçulmanos cultuem: a segurança.

Agora, afinal, Israel está segura. Os palestinos uniram-se à humanidade em geral.

Com essa narrativa ginasiana, infantilizada, a mulher que, há 11 anos, dizia que Jerusalém seria “a eterna e indivisível capital de Israel” demonstra que o conflito Israel-Palestina atingiu o apogeu, o momento mais traiçoeiro e decisivo. Se Netanyahu tiver algum juízo – falo de juízo sionista, expansionista – bastará esperar os 90 dias e passará pelos EUA de nariz erguido. Durante os três meses de “bom comportamento”, claro que os palestinos terão de segurar o rojão e manter-se sentados na cadeira das conversações “de paz” que decidirão as futuras fronteiras de Israel e “Palestina”. Mas, dado que Israel controla 62% da Cisjordânia, Fayyad e a turma dele ainda poderão disputar 10,9% da Palestina do Mandato.

E, ao preço de 827 dólares por segundo, melhor se forem rápidos. Serão. Deveríamos nos enforcar de vergonha. Mas ninguém se enforcará. Não se trata de gente. Tudo é falso. Não se trata de justiça. Só se trata de “segurança”. E de dinheiro. Muito, muito dinheiro. Adeus, Palestina.




[1] No orig. appeasement. O dicionário Cambridge registra para appeasement: “conceder ou ceder a exigências do inimigo (nação, grupo, pessoa etc.) em esforço para conciliar, algumas vezes ao arrepio da justiça ou de outros princípios” (NT). 
[2] No orig. appeaser. A citação mais conhecida, em inglês, é frase atribuída a Churchill: “An appeaser is one who feeds a crocodile, hoping it will eat him last” [Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último] (NT).

domingo, 21 de novembro de 2010

Israel: apartheid, limpeza étnica e fascismo

O artigo que Arlene Clemesha e eu enviamos à Folha de S. Paulo foi supercortado em função do espaço de que o jornal dispunha. Fizemos um corte drástico, mas os editores realizaram outros e algumas coisas deixaram de fazer sentido. O Muro do Apartheid, por exemplo, virou um simples "muro", sem maiores explicações.
Leitores que notaram os cortes pediram que publicássemos o artigo original, na íntegra. Faço isso agora, para que todos saibam que as violações da entidade sionista aos direitos do povo palestino vão muito além do citado no artigo. Trata-se, efetivamente, de limpeza étnica e da ocupação total da Palestina histórica em nome de um "passado" inexistente, usado como justificativa para a expansão colonialista numa região rica em recursos energéticos (gás e petróleo). Aí vai o artigo.


Israel não respeita os direitos dos palestinos
Arlene Clemesha e Bernadette Siqueira Abrão

Em artigo recente à Folha de S. Paulo, o embaixador israelense teceu uma série de queixas contra o lento mas progressivo processo de denúncia de violações de direitos humanos, por parte de Israel, dentro do Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDH-ONU) e na própria Assembleia Geral da organização. Em ambas as instâncias, somos obrigadas a concordar que inúmeros relatórios e resoluções têm sido aprovados, denunciando a violação de direitos humanos por parte dos governos israelenses, seu desrespeito à lei humanitária internacional e seu descaso pelas resoluções da ONU.
É fato também -- que para muitos causa espanto, mas não ao embaixador -- que Israel seja o único país-membro das Nações Unidas sem fronteiras nacionais definidas. Sabemos o motivo: Israel ainda está no processo de expandi-las. Para isso tem criado, dia após dia, fatos consumados que aumentam ilegalmente seu território, como a construção de colônias judaicas nas terras palestinas (Cisjordânia e Faixa de Gaza) militarmente ocupadas desde 1967; de estradas exclusivas para ligar as colônias a Israel, pelas quais é proibido o tráfego de veículos palestinos (em seu próprio território!); a construção do chamado Muro do Apartheid, que anexou a Israel outros 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. Tudo isso acompanhado do consumo abusivo do aquífero subterrâneo da Cisjordânia; da contaminação proposital de poços cavados pelos palestinos; da judaização de Jerusalém oriental, ilegalmente anexada por Israel (tanto é assim que nenhum país do mundo mantém embaixada em Jerusalém, optando por Tel Aviv); da destruição violenta de casas palestinas e da expulsão das famílias, a fim de confiscar suas terras e anexá-las a Israel; dos assassinatos dirigidos; do impedimento ao acesso, pela população palestina, à saúde e à educação.
Vale lembrar que a prática do apartheid por parte do regime de ocupação militar israelense foi denunciada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, e a limpeza étnica do povo palestino é constatada e documentada por intelectuais judeus como Ilan Pappe, Norman Filkenstein, Noam Chomsky e Leni Brenner.
                A justificativa de Israel para seus atos criminosos e de desrespeito à lei humanitária internacional -- zelar pela “segurança” de seus cidadãos, como afirma o embaixador -- não se sustenta. A população palestina, desarmada e em situação de inferioridade diante do exército israelense, considerado um dos mais bem-equipados, treinados e violentos do planeta, não oferece riscos ao Estado de Israel. Quanto aos “mísseis” citados pelo embaixador, não passam de armas de fabricação caseira, que em todo o ano de 2009, por exemplo, causaram tantas mortes israelenses quanto palestinas, devido a acidentes no processo de fabricação. Em ambos os casos, por sorte, foram poucas as fatalidades. Mais importante é lembrar que tais “mísseis” foram usados, em situação de desespero, por um povo oprimido, sofrendo a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, incursões militares constantes, toque de recolher, postos de controle que impedem sua livre movimentação, além da fome e das condições indignas de vida, em consequência do embargo ilegal e criminoso mantido por Israel contra a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
                Em mais um exemplo de descaso pela lei internacional, o Estado de Israel ignorou a resolução da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que concluiu em julho de 2004, após meses de estudos e discussões entre juristas internacionais renomados, que o Muro construído por Israel em território palestino ocupado, assim como o sistema que lhe dá sustentação, é ilegal e deve ser desmantelado. Na ausência de meios mais efetivos -- como a aplicação de sanções --, que caberiam apenas ao Conselho de Segurança da ONU determinar, a CIJ tomou o cuidado de atrelar o cumprimento da Opinião Consultiva ao sistema internacional de normas e convenções, determinando que todo Estado signatário das Convenções de Genebra tem a obrigação de fazer com que seja implementada a sua decisão. Tomando o caso do Brasil, isso significa que estamos legalmente obrigados a não conceder nenhum tipo de apoio, econômico ou diplomático, ao sistema que permite a existência do Muro em territórios palestinos ilegalmente ocupados.
                Além disso, o embaixador cita um prisioneiro israelense, omitindo o fato de que Israel mantém em seus presídios, segundo dados da organização israelense de direitos humanos  B’Tselem, mais de 6.000 prisioneiros palestinos, dos quais uma imensa parcela está sob “prisão administrativa”, isto é, sem acusação formal, sem processo na justiça e sem direito de defesa. Entre esses prisioneiros, em flagrante ilegalidade e desafiando a legislação internacional, encontram-se centenas de crianças. É importante dizer que esses prisioneiros raramente veem seus familiares e vivem em condições sub-humanas, como provam relatos e documentos internacionais. Essas violações de direitos humanos praticadas pelo Estado de Israel, e muitas outras – como o abuso moral e sexual de crianças detidas pelas forças israelenses de ocupação da Palestina -- estão de fato documentadas pelo CDH-ONU.
                Queixa-se também o embaixador de que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU -- do qual, devemos lembrar, Israel não é membro, assim como não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, para dar apenas alguns exemplos de sua tentativa de se esquivar de todo e qualquer compromisso com a lei internacional -- devido ao relatório elaborado pelo juiz de reputação impecável Richard Goldstone (por acaso, de origem judaica) sobre os crimes de guerra israelenses durante o covarde bombardeio que massacrou 1.397 pessoas na Faixa de Gaza, de 27 de dezembro de 2008 a 18 de janeiro de 2009 (dos quais 773 eram civis, incluindo 320 crianças e 109 mulheres). Além disso, o embaixador, seguindo as orientações de seu governo, ainda procura deturpar o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários de todo o mundo (incluindo uma mulher idosa, sobrevivente do holocausto nazista) que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal e desumano a Gaza – um bloqueio qualificado pelo Relator Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Richard Falk, como uma forma de punição coletiva e portanto, segundo as Convenções de Genebra, um crime de guerra e possivelmente crime contra a humanidade.
O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Certamente. Era e continuará sendo também uma provocação? Apenas se considerarmos o termo no sentido de um desafio aberto à humanidade, para que ela impeça a continuidade do cerco desumano a Gaza, onde 80% da população tenta sobreviver com menos de dois dólares ao dia, sofrendo má nutrição crônica, e onde crianças apresentam níveis alarmantes de estresse e graves distúrbios psicológicos causados pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel. O fato de o governo israelense qualificar o Hamas, que dirige politicamente Gaza, de “terrorista” – aqui, é necessário lembrar que o grupo foi formado para resistir à ocupação sionista e ao tratamento desumano que o governo de Israel dá aos palestinos -- não torna menos criminosa a transformação da faixa costeira em uma imensa prisão a céu aberto.
O mesmo governo israelense, cujos porta-vozes tanto se queixam do Conselho de Direitos Humanos da ONU, aprovou, justamente no dia do estranho artigo do embaixador, projeto de lei que, se passar pelo parlamento, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de “lealdade ao caráter judeu do Estado”. No mínimo 20% da população de Israel, que tem origem árabe palestina, será posta diante do dilema: aceitar o caráter exclusivamente judeu do Estado ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que já ultrapassa a casa dos 7 milhões (dado de 2003). De todas as maneiras, a medida é mais uma forma de limpeza étnica, para criar, por meios “legais”, um estado étnico-racial judeu. O mesmo foi posto à ANP nas negociações que se tentam retomar, ou seja, que aceite não apenas a expansão continuada das fronteiras de Israel, através da construção incessante de colônias judaicas, como também reconheça por escrito o caráter judeu do Estado. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU?
Arlene Clemesha, professora de História Árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes (DLO-FFLCH/USP), é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino (UN-INCP).
Bernadette Siqueira Abrão, jornalista, formada em Filosofia (FFLCH/USP), é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de História da Filosofia (editora Moderna).

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Resposta ao embaixador de Israel no Brasil


Arlene Clemesha e eu escrevemos uma longa resposta a um artigo, na Folha de S. Paulo, do embaixador de Israel no Brasil, que se queixou do Conselho de Direitos Humanos da ONU e considerou as flotilhas a Gaza "uma provocação". Procuramos, com isso, mostrar aos leitores o outro lado da questão, o lado desvinculado da propaganda sionista.
Claro que nossa longa resposta foi reduzida a apenas um terço do que era originalmente, o que nos obrigou a retirar a maior parte dos argumentos/fatos que mostravam a opressão ao povo palestino, mas ao menos o sr. embaixador não ficou sem resposta, nem enganou o leitor brasileiro.





São Paulo, sexta-feira, 19 de novembro de 2010
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Israel não respeita direitos do povo palestino ARLENE CLEMESHA e BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO


Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal ou mesmo processo judicial

Em artigo nesta Folha ("Direitos humanos em mãos erradas", "Tendências/Debates", 10/10), o embaixador israelense queixou-se do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da ONU, em que relatórios têm sido aprovados, denunciando graves violações de direitos humanos por parte do governo israelense nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da faixa de Gaza.
De fato, apenas nos primeiros seis meses de 2010, foram registradas na Cisjordânia a demolição de 223 edifícios e a expulsão de 338 palestinos de suas casas.
Quinhentas e cinco barreiras violam o direito de ir e vir, impedindo o acesso da população a escolas, a locais de trabalho e a hospitais, para procedimentos vitais como diálise, cirurgias do coração e cuidado neonatal intensivo.
Seguindo a lógica de anexar o máximo de terras com o mínimo de palestinos, o trajeto tortuoso do muro enclausurou Belém e Qalqilia, expulsou 50 mil palestinos de Jerusalém Oriental e anexou 10% das terras mais férteis da Cisjordânia. As colônias israelenses, também ilegais, expandem-se a todo vapor sobre territórios palestinos.
A justificativa de Israel para a violação de direitos humanos -zelar pela "segurança" de seus cidadãos- não se sustenta, sendo tais atos a própria origem da revolta palestina.
Os "mísseis" citados pelo artigo do embaixador são armas de fabricação caseira, usadas em desespero por um povo sem Estado, que sofre a mais longa ocupação militar da história moderna, submetido a bombardeios, a incursões militares, a assassinatos dirigidos e a toques de recolher.
O artigo também cita um prisioneiro militar israelense, omitindo o fato de que Israel tem em seus presídios mais de 6.000 civis palestinos (incluindo crianças), a maioria deles sem acusação formal, processo judicial ou direito de defesa.
Alega-se que Israel estaria sendo alvo de injustiças por parte do CDH em consequência do relatório do juiz Richard Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos durante o bombardeio que massacrou 1.397 pessoas em Gaza (incluindo 320 crianças e 109 mulheres).
Assim, deturpa-se o caráter heroico da flotilha de ativistas humanitários do mundo todo, incluindo israelenses e uma mulher sobrevivente do Holocausto, que arriscaram suas vidas para quebrar o bloqueio ilegal a Gaza.
O objetivo da flotilha era chamar a atenção do mundo para o problema? Sim. Era e continuará sendo uma provocação? Apenas se considerarmos o termo um desafio aberto, para que a humanidade impeça a continuidade do cerco a Gaza, onde 80% da população sofre de má nutrição crônica, as crianças apresentam estresse e distúrbios psicológicos causados pelos ataques, pelo sofrimento e pelas constantes bombas sonoras lançadas por Israel sobre a pequena faixa costeira.
O mesmo governo israelense que se queixa do CDH emitiu, no dia 10/ 10, um projeto de lei que, se aprovado, exigirá de todo não judeu de Israel um juramento de "lealdade ao caráter judeu do Estado".
Cerca de 20% da população, de origem palestina cristã, muçulmana ou outra, terá de aceitar o caráter judeu do Estado de Israel ou emigrar, aumentando o número de refugiados, que ultrapassa 9 milhões. As consequências disso, para a Palestina e para o mundo, não valem um debate no Conselho de Direitos Humanos da ONU? 

ARLENE CLEMESHA, professora de história árabe na USP e diretora do Centro de Estudos Árabes da mesma universidade, é representante da sociedade civil do Brasil no Comitê da ONU pelos Direitos do Povo Palestino.
BERNADETTE SIQUEIRA ABRÃO, jornalista, formada em filosofia pela USP, é pesquisadora da questão palestina, ativista de direitos humanos e autora, entre outros livros, de "História da Filosofia" editora Moderna).