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| Abbas (à direita na foto), Netanyhau e Obama: negociações secretas impedem que os verdadeiros atingidos pelo conflito -- os povos palestino e israelense -- decidam como querem viver. |
O problema é que tanto as conversas como as decisões ocorrerão em segredo, sem que temas e soluções sejam levados a conhecimento público. Típico de países como EUA e Israel, para os quais tudo é motivo de ocultamento. Somente são permitidos vazamentos selecionados e que servem aos interesses das autoridades de plantão. Os cidadãos, diretamente atingidos pelas decisões, são relegados ao papel de simples espectadores de uma peça sem palavras, em que as falas são reservadas ao último ato. Aí, evidentemente, nada faz sentido.
Em artigo no Sabbah Report de hoje, o diplomata estadunidense Charles Freeman, Jr. chama a atenção para um fato importante: o de que os EUA sempre deram mais importância ao "processo" do que ao "conteúdo" dos acordos de paz. E isso, segundo ele, está na base dos fracassos sucessivos. Freeman tem razão em parte. Na verdade, o conteúdo dos acordos, elaborado com a colaboração decisiva do lobby sionista, nunca fez justiça aos palestinos, que perderam seu país, sua vida, sua possibilidade de futuro. Todos os acordos, o de Oslo incluído, mantêm os bantustões criados por Israel no processo de confisco das terras palestinas. Assim não se tem um Estado soberano mas um país-Frankenstein, fragmentado, impossibilitado de existir verdadeiramente.
Imagine um Brasil que tivesse uma parte no Acre, outra na Bahia, mais uma em Santa Catarina, com cidades separadas por muros e postos de controle, com agricultores cujas propriedades foram divididas por cercas eletrificadas -- a casa fica de um lado, as plantações de outro, e para ir de uma a outra eles precisam de salvo-condutos que quase sempre lhes são negados. Imagine que o restante do Brasil tivesse sido ocupado, digamos, pelos portugueses, que alegando um direito histórico inexistente resolvessem, com o aval da ONU, montar aqui o Novo Portugal. Uma tragédia, certo? Pois aconteceu algo ainda pior com a Palestina. E continua acontecendo.
As propostas deveriam ser levadas aos povos palestino e israelense, discutidas em praças públicas, instituições, residências. Mas, como nas farsas o público é mero assistente, ambas as populações são colocadas à margem. Isso mostra com enorme clareza que o objetivo da trinca negociadora é brilhar sob os holofotes da mídia corporativa internacional, não procurar uma solução séria, legitimada por aqueles que serão afetados por ela: palestinos e israelenses.
Outro problema é a marginalização do Hamás. Considerado "terrorista" por EUA e Israel -- quando, na verdade, é grupo de resistência a uma ocupação longa e violenta, tentando evitar a destruição total de seu país e a humilhação de seu povo --, o Hamás não foi nem mesmo considerado para sentar-se à mesa. Ao contrário de Abbas, o Hamás possui legitimidade para negociar, pois foi levado ao poder por voto popular, em eleição limpa, acompanhada por observadores internacionais. Mas o Hamás, ao contrário de Abbas, não se alinha com os EUA. Nem com Israel. Por isso, é considerado "terrorista". E descartado.
Reafirmo o que disse ontem: que ninguém se iluda. A paz não se faz por decreto. Ela é uma construção coletiva, um esforço de cidadãos livres, com direitos iguais, não um monstrengo fabricado por interesses que nunca levaram em conta as necessidades dos dois povos envolvidos.
P.S. Ontem à noite fiquei indignada ao ouvir a correspondente do Globo News em Nova York dizer que o Hamás tomou o poder em Gaza à força. No meu tempo de jornal, a gente pesquisava exaustivamente o assunto sobre o qual escreveria, procurando dar ao leitor informações contextualizadas e corretas. Já a moça da Globo -- aliás, nem tão moça assim -- limitou-se a repetir as bobagens publicadas pela mídia estadunidense, controlada por judeus bilionários. Coitada dela. E pobres telespectadores, que receberam uma informação falsa.
PALESTINA - COMO ERA, COMO FICOU


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