quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A farsa das novas "negociações de paz"

"Plano de paz de Netanyhau", de Carlos Latuff.
Na quarta-feira, 1/9, foi realizada a cerimônia de retomada (retomada?) das negociações de paz entre Palestina e Israel. O palco, evidente para quem conhece um mínimo de política internacional, é Washington. Quase desnecessário dizer que as negociações, previstas para durar até um ano, darão em nada -- ou num acordo prejudicial aos palestinos.

Os motivos são vários. Um deles, talvez o núcleo duro das conversas, é a disposição do premiê Benjamin Netanyhau de manter os territórios conquistados à força por Israel da Guerra dos Seis Dias (1967) até hoje -- e que representam, neste momento, menos de 3% da Palestina original, anterior à Nakba de 1948. Naquela época, como se sabe, uma decisão da ONU, inaceitável sob todos os pontos de vista, colocou Israel dentro da Palestina. As declarações de Netanyhau na Casa Branca, no primeiro encontro entre autoridades palestinas, israelenses e estadunidenses, não deixam margem a dúvidas em relação à paz que ele propõe. "Qualquer acordo de paz deve garantir a segurança [de Israel]", afirmou Netanyhau à agência Reuters.

"Segurança", como se sabe, é a palavra-chave que justifica todos os atos criminosos dos sionistas: a ocupação do território palestino, os postos de controle, o Muro da Vergonha, a demolição de casas pertencentes a famílias árabes, a expansão do sistema colonialista (conhecido pelo eufemismo "assentamentos"), o crescente confisco de mais terras palestinas, o bloqueio a Gaza, a proibição de livre circulação dos palestinos, a violação dos direitos humanos e civis da população árabe, os assassinatos cometidos pelo exército israelense em nome da política de limpeza étnica, a inobservância das resoluções da ONU, da Convenção de Genebra e de outras leis internacionais -- para ficar nos crimes mais conhecidos. Mantidas essas condições, ditas "de segurança", é claro que não haverá paz.

A proposta da direita israelense, de incorporar as terras palestinas (exceto Gaza) e formar um único país, é prova de que os sionistas não abrem mão do que têm hoje. Os representantes da linha dura do sionismo declararam ao jornal israelense Haaretz, há pouco mais de um mês, que preferem essa solução a dividir o país, o que significaria ceder as terras tomadas à Palestina para a constituição de seu Estado. O confisco de territórios promovido por Israel desde 1967 formou guetos, ou bantustões, palestinos, praticamente incomunicáveis uns com os outros e com o mundo. Nesses termos, a condição para que os palestinos tenham assegurados seus direitos é a "lealdade" ao Estado... de Israel. Exigência que, é óbvio, palestino algum aceitará, até porque equivale à renúncia à própria cidadania e ao golpe final na destruição da Palestina.

Israel também não aceita o direito de retorno dos refugiados palestinos, expulsos de suas casas durante o processo de ocupação da Palestina por Israel, nos anos 1940. Isso desestabilizaria definitivamente o precário equilíbrio demográfico entre árabes e judeus, com larga vantagem para os árabes. Os sionistas temem que um Estado de maioria palestina acabe por "palestinizar" Israel, o que tende realmente a acontecer, com ou sem o retorno dos refugiados. A população árabe de Gaza e Cisjordânia cresce bem mais do que a judaica. Famílias palestinas têm muitos filhos, ao passo que as judias, em sua maioria, optam pelo filho único.

Outro fator a considerar, nas conversações de "paz", é a representatividade de Mahmoud Abbas (presidente da Autoridade Palestina, AP) como interlocutor, posta em xeque pela maioria dos palestinos. Para começar, seu mandato terminou em janeiro de 2009 e ele se mantém no poder até hoje. Em artigo para o Frontline of Revolutionary Struggle de 31 de agosto, Jeffrey Blankfort, jornalista e ativista pró direitos humanos dos palestinos, analisa a ilegitimidade de Abbas em negociar a paz em nome dos palestinos. Chama-o de "xerife de Israel na Cisjordânia", "agente duplo" e lembra que, como negociador-chefe do acordo de Oslo, Abbas concordou em entregar a Israel as terras palestinas ocupadas. Recorda também que, no ataque militar de Israel a Gaza (2008-2009), ele não apenas se calou como reprimiu manifestações de apoio a Gaza na Cisjordânia e tentou, juntamente com as autoridades israelenses, suprimir a investigação da ONU que levou à elaboração do Relatório Goldstone, no qual as autoridades israelenses são acusadas de crimes de guerra e contra a humanidade.

O anfitrião Barak Obama, apesar da retórica, nada fará para desagradar o poderoso lobby sionista dos EUA, que atua nos bastidores a favor de Israel e da manutenção do estado de guerra.

Em outras palavras, as negociações para uma paz que não virá não passam de farsa, um teatro para manter ocupada a mídia corporativa e os leitores/ouvintes/telespectadores que ainda acreditam nela. Essa mídia usará o fracasso das negociações contra os palestinos, acusando-os de não querer a paz, e tecerá elogios às autoridades israelenses e estadunidenses -- um arranjo muito útil para tirar Israel do isolamento, ampliado depois do ataque à Flotilha da Liberdade, e para minimizar as críticas aos EUA, mais duras após a publicação dos "documentos secretos" sobre sua desastrosa atuação no Afeganistão e no Iraque. Além disso, com as "conversações de paz" nas manchetes, possíveis ataques ao Irã e à Venezuela talvez ocorram sem tanta turbulência. Atenta à "paz", a opinião pública provavelmente não se incomodará muito com novas guerras. Em especial contra países/governos que a mídia corporativa não se cansa de satanizar.

Em outras palavras, trata-se de uma estratégia de marketing que durará um longo ano. Um golpe de mestre que o lobby sionista dos EUA utilizará a seu favor. A esse respeito, é esclarecedor ler o ensaio de James Petras, professor aposentado (emérito) de sociologia da Binghamton University, de Nova York, sobre a atuação desse lobby para se manter nos postos-chave do poder estadunidense e continuar dominando a política externa dos EUA -- o que inclui conflitos armados no Oriente Médio, que rendem bilhões de dólares às contas bancárias dos sócios das indústrias de armamentos e, de quebra, dão aos sionistas e aos EUA a perspectiva de apoderar-se dos recursos energéticos daquela parte do mundo, em especial petróleo e gás natural.

[A próxima postagem trará o ensaio de Petras, traduzido por mim.]

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