domingo, 1 de agosto de 2010

Mais limpeza étnica, mais roubo de terras palestinas

Palestinians inspect damage of their property destroyed by the Israeli army, in the West Bank village of Faresiya. (AP Photo/Mohammed Ballas)
Palestinos inspecionam restos de sua propriedade, destruída pelo exército israelense em Faresiya, Cisjordânia, em 19 de julho.  Ao todo, foram demolidas 55 construções, que serviam a 120 agricultores e suas famílias. Saiba mais sobre este crime aqui.


Uri Avnery
31 de julho de 2010
                                   
Pessoas dotadas de sensibilidade política ficaram espantadas, esta semana, por duas palavras que, ao que parece, escaparam dos lábios de Binyamin Netanyahu: "Frente Oriental".

Houve uma época em que essas duas palavras eram parte do vocabulário cotidiano da ocupação [da Palestina por Israel]. Nos últimos anos, porém, elas acumularam pó no ferro-velho político. 

A expressão "Frente Oriental" nasceu após a Guerra dos Seis Dias. Serviu para reforçar a doutrina estratégica de que o rio Jordão é a "fronteira de segurança" de Israel.

A teoria: existiria uma possibilidade de que três exércitos árabes - os de Iraque, Síria e Jordânia - se reunissem a leste da Jordânia, atravessassem o rio Jordão e colocassem em risco a existência de Israel. Seria preciso detê-los antes que entrassem no país. Portanto, o vale do Jordão deveria servir como uma base permanente para o exército israelense; nossas tropas deveriam permanecer lá.

Para começar, essa era uma teoria duvidosa. A fim de participar de uma ofensiva como essa, o exército iraquiano teria de reunir-se, cruzar o deserto e implantar, na Jordânia, uma operação demorada e de logística complexa, o que daria ao exército israelense tempo suficiente para atacá-lo muito antes que chegasse às margens do Jordão. Quanto à Síria, seria muito mais fácil atacar Israel a partir das colinas de Golã do que movimentar seu exército para sul e investir a partir do leste. Quanto à Jordânia, sempre foi um secreto, mas fiel, parceiro de Israel (exceção feita ao curto episódio da Guerra dos Seis Dias).

Nos últimos anos, a teoria tornou-se manifestamente ridícula. Os estadunidenses invadiram o Iraque, derrotaram e dissolveram o glorioso exército de Saddam Hussein, que acabou por se transformar num tigre de papel. O reino da Jordânia assinou um tratado de paz com Israel. A Síria usa todas as oportunidades para demonstrar seu desejo de paz, desde que Israel lhe devolva as colinas de Golã. Em suma, Israel não tem nada a temer de seus vizinhos do leste.

Claro, as situações podem se modificar. Regimes mudam, alianças se alteram. Mas é impossível imaginar uma situação em que três exércitos aterrorizantes atravessassem a Jordânia rumo a Canaã, como os filhos de Israel na narrativa bíblica.

Além disso, a ideia de um ataque por terra, como as blitzkrieg nazistas na II Guerra Mundial, pertence à história. Em qualquer guerra do futuro, mísseis de longo alcance desempenharão papel predominante. Pode-se imaginar os soldados israelenses no vale do Jordão, em cadeiras reclináveis, observando os mísseis voando sobre suas cabeças...

Se é assim, como é que a ideia da Frente Oriental ganha vida de novo? 

Pode ser útil voltar 43 anos no tempo, a fim de compreender como esse bicho-papão nasceu.

Apenas seis semanas após a Guerra dos Seis Dias, o Plano Allon foi lançado. Yigal Allon, então ministro do Trabalho, apresentou-o ao governo. Não foi adotado oficialmente, mas exerceu grande influência sobre os líderes israelenses.

Nenhum mapa autorizado do plano foi publicado, mas os principais pontos tornaram-se conhecidos. Allon propôs anexar a Israel o vale do Jordão e a costa ocidental do Mar Morto.  O restante da Cisjordânia seriam enclaves cercados por território israelense, exceto por um estreito corredor perto de Jericó, que ligaria a Cisjordânia ao reino da Jordânia. Allon propôs também a anexação de áreas determinadas da Cisjordânia: o norte do Sinai ("a abertura de Rafah") e o sul de Gaza ("Bloco Katif").

A ele não importava se a Cisjordânia seria devolvida à Jordânia ou se viraria uma entidade palestina independente. Certa vez eu o ataquei, da tribuna do Knesset [o parlamento israelense] , e o acusei de obstruir a criação do Estado palestino, que defendi. Quando voltei ao meu lugar, Allon me enviou um bilhete: "Eu sou de um Estado palestino na Cisjordânia. Então, como posso ser menos pacifista do que você?"

O plano foi apresentado como um imperativo militar, mas seus motivos eram bem diferentes.

Naqueles dias eu me encontrava regularmente com Allon, e por isso tive a oportunidade de acompanhar sua linha de pensamento. Ele tinha sido um dos comandantes de destaque da guerra de 1948 e era considerado um especialista em assuntos militares, mas acima de tudo era um dos principais membros do movimento dos kibbutzim, que na época exercia grande influência no país.

Logo após a ocupação da Cisjordânia, os adeptos dos kibutzim espalharam-se pelo território, procurando áreas apropriadas para a agricultura intensiva moderna. Naturalmente, foram atraídos para o vale do Jordão. Do ponto de vista deles, tratava-se de um lugar ideal para novos kibbutzim. Ali há muita água, o terreno é plano e adequado para o trabalho das máquinas agrícolas modernas. E, mais importante, era pouco povoado. Todas essas vantagens faltavam nas demais regiões da Cisjordânia: eram densamente povoadas, de topografia montanhosa e com escassez de água.

Na minha opinião, o plano de Allon foi fruto de ganância agrícola; a justificativa de segurança militar  não passou de um pretexto. E, de fato, o resultado imediato foi a criação de um grande número de kibbutzim e moshavim (aldeias cooperativas) no vale.

Anos se passaram antes que os limites do plano Allon fossem ultrapassados, com a criação de assentamentos em toda a Cisjordânia.

O plano Allon deu à luz o bicho-papão da "Frente Oriental" e desde então tem aterrorizado os que buscam a paz. Como um fantasma, ele vem e vai, se materializa e desaparece, tomando diferentes formas.

Ariel Sharon exigiu a anexação do vale "alargado". O vale em si, uma parte da Grande Síria-Vale do Rift Africano, tem 120 km de comprimento (do Mar da Galileia ao Mar Morto) mas apenas cerca de 15 km de largura. Sharon exigiu quase obsessivamente a adição, a ele, da "parte de trás da montanha", isto é, a encosta oriental da cordilheira central da Cisjordânia, que o teria ampliado de maneira substancial.

Quando Sharon aprovou o projeto do muro, este deveria, supostamente, separar a Cisjordânia não apenas de Israel, mas também do vale do Jordão. Isso teria permitido o  que foi chamado de "Plano Allon extra". O muro cercaria a toda a Cisjordânia, sem o corredor de Jericó. O plano não foi implementado até agora por causa da oposição internacional e da falta de fundos.

Desde o acordo de Oslo, quase todos os governos israelenses insistiram que o vale do Jordão deve permanecer em mãos israelenses em qualquer futuro acordo de paz. Essa demanda surgiu em muitos disfarces: às vezes sob as palavras "segurança das fronteiras", outras vezes "estações de advertência" ou "instalações militares" ou  "arrendamento de longo prazo", dependendo do talento criativo dos sucessivos primeiros-ministros. O denominador comum: o vale deve permanecer sob controle israelense.

Agora vem Netanyahu e ressuscita a expressão "frente oriental".

Que frente oriental? Que ameaças nos fazem nossos vizinhos orientais? Onde está Saddam Hussein? Onde está Hafez al-Assad? Mahmoud Ahmadinejad vai enviar as colunas blindadas da Guarda Revolucionária pelas pontes do Jordão?

O raciocínio [das autoridades israelenses] é o seguinte: os EUA deixarão o Iraque algum dia. Então um novo Saddam Hussein surgirá, dessa vez um xiíta, e irá aliar-se aos xiítas do Irã e aos turcos traiçoeiros. E não se pode contar com o rei jordaniano, que abomina Netanyahu. Coisas terríveis podem acontecer se as margens do Jordão não forem vigiadas!

Esse raciocínio é manifestamente ridículo. Então, qual é o objetivo real?

O mundo inteiro está ocupado com a demanda estadunidense de iniciar "negociações diretas" entre Israel e a Autoridade Palestiniana. Podemos ser tentados a pensar que a paz do mundo depende da substituição de "negociações indiretas" em "negociações diretas". Nunca tantas palavras hipócritas foram ditas sobre um assunto tão trivial.

As "negociações indiretas" se arrastam há vários meses. Seria errado dizer que os resultados foram próximos de zero. Eles foram zero. O zero absoluto. O que acontecerá se as duas partes sentarem-se juntas? Pode-se prever com certeza absoluta: outro zero. Na ausência da determinação dos EUA em impor uma solução, não haverá solução.

Então por que Barack Obama insiste? Há uma explicação: suas políticas falharam em todo o Oriente Médio. Ele tem necessidade urgente de uma conquista que impressione. Prometeu deixar o Iraque, e a situação, lá, torna a retirada impossível. A guerra no Afeganistão está indo de mal a pior, um general sai e outro chega e a vitória está mais longe do que nunca. Já se pode imaginar o último soldado estadunidense embarcando no último helicóptero, no telhado da embaixada dos EUA em Cabul.

Resta o conflito israelo-palestiniano. Aqui também Obama enfrenta o fracasso. Esperava conseguir muito sem investir nada e foi facilmente derrotado pelo lobby israelense. Para esconder a vergonha, ele precisa de algo que possa ser apresentado ao público ignorante como uma grande vitória dos EUA. A renovação das "negociações diretas" significa essa vitória.

Netanyahu, por sua vez, está bastante satisfeito com a situação atual. Israel chama para negociações diretas, e os palestinos a recusam. Israel estende a mão para a paz, os palestinos viram as costas. Mahmoud Abbas exige que Israel prorrogue o congelamento dos assentamentos e declara antecipadamente que as negociações serão baseadas nas fronteiras de 1967.

Mas os EUA exercem uma enorme pressão sobre Abbas, e Netanyahu teme que Abbas ceda a essa pressão. Portanto, declara que não pode congelar os assentamentos, porque nesse caso - Deus nos livre! - sua coalizão [com outros partidos, no governo] se desintegraria. E se isso não for suficiente, aí vem a frente oriental. O governo israelense avisa os palestinos de que não vai desistir do vale do Jordão.

Para enfatizar esse ponto, Netanyahu começou a remover o restante da população palestina no vale, alguns milhares de pessoas. Aldeias serão destruídas a partir desta semana em Farasiya, onde todas as residências e as instalações de água foram demolidas. Trata-se de limpeza étnica pura e simples, algo muito parecido com a operação semelhante já em curso contra os beduínos do Negev.

O que Netanyahu está dizendo, em outras palavras, é: Abbas deve pensar duas vezes antes de entrar nas "negociações diretas".

O vale do Jordão desce ao ponto mais baixo da superfície da Terra, o Mar Morto, 400 metros abaixo do nível médio do mar.

A revitalização da frente oriental pode indicar o ponto mais baixo da política de Netanyahu, com o objetivo de exterminar de uma vez por todas qualquer resto de chance para a paz. 


Uri Avnery, 87, foi membro do Knesset, pertenceu ao grupo armado terrorista Irgun e tornou-se pacifista. Dirige a organização pacifista Gush Shalom, de Israel, e defende a causa palestina.


Fonte: Gush Shalom 


Tradução: Baby Siqueira Abrão

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