Em 11 de julho, segundo o jornal israelense Haaretz, o premiê de Israel, Binyamin Netanyhau, assinou um decreto impedindo o acesso dos pesquisadores e do público aos arquivos sionistas por mais 20 anos. Isso se deve ao fato de os "novos historiadores", após extensas pesquisas nesses arquivos, terem recontado a história de Israel, revelando os mitos criados pelos sionistas, as negociações nada éticas (para dizer o mínimo) levadas a cabo por eles na Europa e nos EUA para a constituição de Israel e a violência da ocupação da Palestina.
A tentativa do premiê é vã. Por um lado, porque a opinião pública mundial já sabe o que os documentos revelam, uma vez que os historiadores israelenses divulgaram-nos em muitos livros, que se tornaram best sellers nos países onde foram publicados. Por outro lado, porque os historiadores palestinos também contam essa história, cujas marcas ainda estão nos edifícios e na alma do povo. A decisão de Netanyhau demonstra o temor de que outros fatos funestos venham a ser revelados e acrescentados às mentiras contadas pelos sionistas até 1978 (ano em que os arquivos foram abertos ao público), além de ser uma prova de que esses fatos existem e de que ainda há muito mais a ser desvendado em relação à luta ilegítima, travada pelos sionistas, pela imposição do Estado de Israel dentro de outro Estado, legitimamente constituído: a Palestina.
Lawrence Davidson, professor de história da West Chester University, da Pensilvânia, e autor de vários livros sobre o Oriente Médio, comenta a medida do governo israelense. Traduzi o texto, que recebi hoje do Sabbah Report - Because Silence Is Complicity!
Para manter esses mitos é preciso controlar a história. A história controlada deve ser ensinada nas escolas e apoiada pelas múltiplas mídias da nação. É preciso convencer uma população para que ela assimile a visão de mundo mítica a ponto de, se algo ocorrer que contradisser essa visão, possa ser facilmente descartado como exceção à regra. No caso dos Estados Unidos, duzentos anos de doutrinação e um status de longo prazo como grande potência permitiu que seus mitos sobrevivessem, na mente de seu povo, mesmo com os horrores do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão. Israel é uma nação muito mais jovem, com apenas três ou mais gerações submetidas à, digamos, doutrinação psicológica. E, embora possa ser uma superpotência regional, sua reputação no Oriente Médio é construída sobre o medo. No resto do mundo sua reputação é associada a atitudes igualmente instáveis e provisórias, como a culpa do holocausto. Em essência, com exceção da crença dos sionistas convictos, os mitos nacionais que Israel sustenta são frágeis.
Alguns anos atrás, Israel aplicou uma lei que exigia que o governo abrisse seus arquivos, para consulta pública e para pesquisas, depois de trinta anos [da fundação do Estado] para assuntos políticos e cinqüenta anos para assuntos militares. Isso trouxe à luz muitos dos documentos referentes aos anos seminais de 1947 e 1948. O resultado foi uma séria revisão, baseada em evidências, dos mitos fundadores de Israel. Em outras palavras, o Estado perdeu o controle momentâneo da sua própria história. O resultado prejudicou a auto-imagem mítica da nação entre os observadores internacionais e causou mal-estar significativo no país. Tão poderosa foi a reação das elites contra a revisão do passado realizada pelos "novos historiadores" que eles hoje em dia ensinam no estrangeiro ou, como no caso de Benny Morris, retrataram-se.
Nesse ínterim, as coisas só pioraram para os sionistas, defensores de um Israel idealizado. As várias invasões no Líbano e nas cidades e vilas de palestinos indefesos, a matança de inocentes, a redução da Faixa de Gaza a uma prisão a céu aberto, o confisco contínua de terras e de propriedades nos Territórios Ocupados [Gaza e Cisjordânia], a violência desenfreada dos colonos [israelenses que vivem nas colônias, ou assentamentos, construídos em terras palestinas roubadas por Israel], e as repetidas eleições de governos racistas resultaram em um esforço da sociedade civil, em todo o mundo, de isolar Israel e levá-lo a reformar-se, assim como aconteceu com a África do Sul. Com exceção dos Estados Unidos, a justificativa de que Israel age apenas para se defender não é considerada crível, e a acusação de que todos os que discordam são antissemitas não é levada a sério. No entanto, o desencantamento internacional, tão perigoso quanto poderia ser a longo prazo, não é tão ameaçador como a erosão da adesão da própria população israelense a seus mitos nacionais. Essa adesão deve ser mantida a todo custo, senão o país vai metamorfosear-se em algo que não suporta mais suas atuais elites. O destino dos "novos historiadores" demonstrou quão determinado é o establishment israelense em evitar esse tipo de erosão.
Sendo esse o caso, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, prorrogou por mais vinte anos o período no qual os arquivos do governo devem permanecer fechados.
O artigo do Haaretz anunciando essa decisão diz que o primeiro-ministro agiu por causa da "pressão das agências de inteligência", mas Netanyahu provavelmente não precisa de argumentos muito convincentes. O período coberto pelos documentos considerados secretos pela decisão do premiê inclui eventos como o Caso Lavon, de 1954, a invasão do Sinai, em 1956, e a guerra de 1967 [Guerra dos Seis Dias], que viu o ataque hediondo ao USS Liberty e o confisco das Colinas de Golã. O arquivista do Estado, Yehoshua Freundlich, disse ao Haaretz que "parte do material foi selecionada porque tem implicações sobre a adesão [de Israel] ao direito internacional". Essa é, provavelmente, uma subestimação. Para adicionar o insulto à injúria, o Haaretz informa que existe uma boa possibilidade de que a decisão do governo de classificar como "ultrassecretos" muitos fatos do passado de Israel significa que "os arquivos que já tinham sido tornados públicos seriam mais uma vez escondidos".
Se você estudar a história de Israel revista pelos novos historiadores ficará chocado com o comportamento maquiavélico de homens como David Ben Gurion, que fez a profissão de fé de ser "econômico em relação à verdade". Tão desonestas foram muitas das primeiras figuras do establishment israelense que seus concorrentes políticos, como o neofascista Ze'ev Jabotinsky e o terrorista Menachem Begin, parecem quase suaves em sua assustadora honestidade. Hoje temos o pior dos mundos em Israel: líderes terroristas e escandalosamente desonestos. Agora, por admissão própria, os atuais líderes sionistas devem esconder os pecados de sua nação, temendo que o mundo inteiro se afaste de Israel e que talvez até mesmo seus próprios cidadãos comecem a recear que seus mitos nacionais não podem suportar uma análise honesta e objetiva.
Minhas indicações de leitura para quem deseja iniciar o estudo da verdadeira história de Israel:
FILKENSTEIN, Norman. Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005.
FILKENSTEIN, Norman. A indústria do holocausto. Tradução de Vera Gertel. Rio de Janeiro: Record, 2001. [Leia gratuitamente clicando aqui.]
GATTAZ, André. A guerra da Palestina. São Paulo: Usina do Livro, 2002. [Você raramente encontra em livrarias. Para comprar, clique aqui.]


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