segunda-feira, 19 de julho de 2010

Israel agora mata palestinos a distância


Jovem do exército israelense opera o Spot and Shoot, sistema que permite acionar armas controladas a distância, para executar palestinos que se aproximam da cerca em volta de Gaza. Basta apertar um botão do joystick para matá-los. O detalhe é que as cercas foram colocadas junto das terras cultivadas de Gaza, onde os palestinos mantêm plantações de onde retiram -- ou retiravam -- o próprio alimento. Como Israel decretou uma "zona-tampão" de 300 metros após a cerca, já em território palestino, a população de Gaza foi impedida de ter acesso a uma de suas raríssimas fontes de alimentação. Israel está na vanguarda do desenvolvimento da tecnologia de morte a distância.



Os palestinos tornaram-se cobaias de armas israelenses que matam a distância, operadas por controle remoto. É mais um passo de Israel rumo ao controle total da vida, hoje na Palestina, amanhã no Oriente Média e depois -- quem sabe? -- no mundo todo. Os danos psicológicos desse tipo de armamento são óbvios, criando pavor e desespero. Afinal, qualquer pessoa pode ser morta a qualquer momento. Lembremos que o Knesset, o parlamento israelense, e o governo, aprovam leis absurdas praticamente todos os dias, com o objetivo de incriminar os palestinos por motivos fúteis. Pela incapacidade de conhecê-las, dado o grande número e a frequência na elaboração dessas leis, eles podem ser executados por infringi-las -- sem saber disso, sem direito a defesa e a julgamento, o que já ocorre rotineiramente.
Da parte do exército, esse tipo de armamento é útil. Permite que os soldados não arrisquem a vida e torna o assassinato um ato tão simples e banal como brincar de video game.
Se as nações do mundo continuarem guardando silêncio diante das ações criminosas de Israel, não duvidem: logo, logo seremos todos não apenas controlados por câmaras, mas teremos metralhadoras apontadas para nossas cabeças. O Grande Irmão de Orwell virou artefato de colecionador. A tecnologia bélica de Israel está tornando o mundo muito pior.
Leia a matéria de Jonathan Cook, retirada do portal palestino Sabbah Report - Because Silence is Complicity!, e traduzida por mim. (O início do segundo parágrafo, sobre o "joguinho idiota" e suas consequências, é meu.)
O jogo se chama Spot and Shoot: mirar e disparar. As moças sentam-se diante de um monitor de TV, manejando joysticks no estilo PlayStation. O objetivo: matar.
Pode parecer mais um joguinho idiota, sem outras consequências senão banalizar a violência, mas não se trata disso. As operadoras, jovens que servem o exército israelense, atiram para matar DE VERDADE. Na tela, as imagens são reais, assim como os alvos: palestinos da Faixa de Gaza. Eles agora podem ser mortos com o pressionar de um botão no joystick.
As operadoras, que ficam longe de Gaza, em uma sala própria para esse “trabalho”, são responsáveis por apontar e disparar, por controle remoto, metralhadoras montadas sobre torres de observação, localizadas a cada poucas centenas de metros ao longo da cerca eletrônica que Israel colocou em torno de Gaza.
O sistema é uma das últimas novidades de "dispositivos remotos de matança" desenvolvidos pela Rafael, ex-divisão de pesquisa de armamentos do exército israelense e agora uma empresa independente do governo.
Segundo Giora Katz, vice-presidente da Rafael, equipamentos militares por controle remoto como o Spot and Shoot são a cara do futuro. Ele espera que dentro de uma década, mais ou menos, um terço das máquinas utilizadas pelo exército israelita para controlar terra, ar e mar seja manejado a distância.
A demanda por tais dispositivos, o exército israelense admite, foi parcialmente alimentada por uma combinação de fatores: o recrutamento de soldados, em declínio, e uma população menos disposta a arriscar-se a morrer em combate.
Oren Berebbi, chefe da área tecnológica da Rafael, disse recentemente a um jornal estadunidense: "Estamos tentando chegar a veículos não-tripulados em toda parte, no campo de batalha ... Podemos fazer mais e mais missões sem colocar um único soldado em risco".
O rápido progresso da tecnologia de guerra tem feito soar o alarme nas Nações Unidas. Philip Alston, o relator especial sobre execuções extrajudiciais, advertiu no mês passado o perigo do surgimento rápido de uma "mentalidade PlayStation de matança".
De acordo com analistas, é pouco provável que Israel vire as costas ao hardware que tem estado na vanguarda do desenvolvimento bélico - com os territórios palestinos ocupados, especialmente Gaza, como laboratórios de ensaio.
Sistemas de guerra comandados a distância estão em alta demanda em regimes repressivos e nas indústrias de segurança do mundo inteiro.
"Esses sistemas ainda estão nos estágios iniciais de desenvolvimento, mas há um mercado grande e crescente para eles", disse Shlomo Brom, general reformado e analista de defesa no Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, em Israel.
O sistema Spot and Shoot – oficialmente conhecido como Sentry Tech [Sentinela Tecnológica] – tem atraído a atenção, principalmente, por ser operado por soldados do sexo feminino, entre 19 e 20 anos de idade. Trata-se do único armamento do exército israelense manejado exclusivamente por mulheres.
Elas são as preferidas para operar dispositivos remotos de matança em consequência da escassez de recrutas do sexo masculino para as unidades de combate de Israel. As jovens podem realizar missões sem quebrar o tabu social de arriscar suas vidas, disse Shlomo Brom.
As moças têm por objetivo identificar "suspeitos" que se aproximam da cerca que Israel colocou na fronteira com Gaza. Então, autorizadas por um oficial, podem executá-los, usando seus joysticks.
O exército israelense, que pretende introduzir a tecnologia em outras linhas de confronto, recusa-se a dizer quantos palestinos já foram mortos pelas metralhadoras controladas a distância. Segundo a mídia israelense, no entanto, acredita-se que o número chegue a várias dezenas.
O sistema foi introduzido por etapas, nos dois últimos anos, sob supervisão. Só recentemente as operadoras foram autorizadas a abrir fogo. O exército admitiu ter usado o Sentry Tech em dezembro, para matar ao menos dois palestinos que estavam em sua própria terra, Gaza, a várias centenas de metros da cerca.
O jornal israelense Haaretz, que teve acesso a uma sala de controle Sentry Tech, citou uma jovem soldado, Bar Keren, 20, na semana passada, dizendo: "É muito sedutor ser a única a fazer isso. Mas nem todo mundo quer esse emprego. Não é uma simples questão de pegar um joystick semelhante ao de um Sony PlayStation e matar. Em última instância, é para a nossa defesa".
Os sensores de áudio nas torres permitem que as mulheres ouçam o tiro no momento em que ele acerta o alvo. Nenhuma mulher, diz o Haaretz, falhou na tarefa de acertar no que o exército israelense chama de palestino “culpado”.
Os militares israelenses, que impõem uma linha divisória invisível a 300 metros depois da cerca, já em território palestino, têm sido amplamente criticados por abrir fogo sobre os civis que entram naquela área.
A empresa Rafael trabalha numa versão do Sentry Tech para disparar mísseis de longo alcance.
Outra peça de hardware recentemente desenvolvida para o exército israelita é o Guardium, um veículo-robô blindado que atinge até 80 quilômetros por hora, capaz de patrulhar áreas variadas, cidades, de fazer "emboscadas" e atirar. O Guardium patrulhas as fronteiras de Israel com Gaza e com o Líbano.
Os desenvolvedores israelenses da novidade, G-Nius, chamam-no de primeiro “soldado-robô” do mundo.
Mas Israel é mais conhecido por seu papel no desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados - ou drones, como ficaram conhecidos. Originalmente concebidos para espionagem, e usados pela primeira vez por Israel no sul do Líbano, no início dos anos 1980, esses aviões estão sendo usados, cada vez mais, para execuções extrajudiciais realizadas a milhares de quilômetros do solo.

A metralhadora no alto da torre de controle obedece aos comandos do joystick. Basta mirar e atirar. Para matar.
Jonathan Cook, escritor e jornalista britânico, vive em Nazaré, na Palestina ocupada.
Uma versão deste artigo apareceu originalmente em The National, publicado em Abu Dhabi.

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