![]() Militarização da América Central e do Caribe: EUA envia tropas à Costa Rica Mark Vorpahl Aninhado entre o Panamá (ao sul) e a Nicarágua (ao norte), a Costa Rica é um país centro-americano que tem, aproximadamente, o tamanho de Rhode Island. Se outro país enviasse a Rhode Island uma força militar com 7.000 soldados, 200 helicópteros e 46 navios de guerra, em um esforço para erradicar o tráfico de drogas, os moradores da ilha certamente não o veriam com bons olhos. Até porque essa não é a maneira mais eficaz de dar combate aos cartéis da droga. A única conclusão lógica é que a nação cujas tropas agora ocupam a Costa Rica têm outro objetivo em mente. No início de julho, por 31 votos a 8, o Congresso da Costa Rica aprovou o ingresso dessa força militar estadunidense no país, justificando a medida com a deculpa duvidosa da "guerra contra as drogas". Segundo o acordo firmado entre as duas nações, as tropas dos EUA devem deixar a Costa Rica até o final de 2010. Isso suscita a seguinte questão : se neste momento a força militar é supostamente necessária para combater os cartéis do narcotráfico, o que será feito nos próximos meses para tornar sua presença desnecessária? O histórico militar dos EUA no mundo é revelador: uma vez instaladas num país estrangeiro, as tropas estadunidenses raramente o deixam. A máquina política da Costa Rica é subserviente ao governo e aos interesses corporativos dos EUA. Mesmo assim, muitos costa-riquenhos denunciam que o acordo é uma violação de sua soberania e é inconstitucional. (Em 1948, a Costa Rica aboliu seu exército, o que foi sancionado na Constituição.) Luis Fishman, membro do Congresso do país centro-americano, prometeu contestar a decisão dos colegas nos tribunais. Mudança de estratégia e de táticas A entrada das forças armadas dos EUA na Costa Rica é parte de uma escalada que indica uma mudança de estratégia e de táticas estadunidenses para controlar aquilo que a doutrina Monroe definiu, de maneira infame, como «o quintal dos EUA» -- toda a América Latina. Uma vez que o governo estadunidense, em décadas anteriores, inspirou secretamente golpes de Estado e reviravoltas políticas nos governos e/ou movimentos populares de Guatemala, Brasil, Chile, Nicarágua e El Salvador, seus dirigentes acreditaram ter ajeitado as coisas a seu favor no continente latino. As elites políticas da América Latina estavam no bolso do império corporativo dos EUA e pareciam ter um certo controle do povo latino-americano. Proibiram as greves e às vezes até os sindicatos, eliminaram as leis do salário mínimo e deram incentivos fiscais para as grandes empresas dos EUA. Portanto, os construtores do império estadunidense puderam usar a política e a economia dessas neo-colônias para subjugá-las e colocá-las na rentável agenda neoliberal. Essa agenda incluiu o fácil acesso, por parte das corporações dos EUA, à pilhagem dos setores públicos das nações latino-americanas, por meio da privatização. Também permitiu que as multinacionais estadunidenses inundassem os mercados e a agricultura locais graças à eliminação das barreiras comerciais, ao aumento da exploração dos trabalhadores e à devastação dos recursos naturais, desprezando as leis que regiam o trabalho desses países e suas normas ambientais. Em consequência dos lucros auferidos por alguns como resultado dessas medidas, as grandes corporações levaram a melhor, embora tenham provocado um clima de rebelião nos camponeses e nos trabalhadores das semi-colônias – rebelião que inevitavelmente encontrariam expressão. Como o olhar e os recursos dos EUA começaram a voltar-se para outras partes do mundo, sobretudo Oriente Médio e Ásia, a rede com a qual haviam enrolado a América Latina começou a se desfazer. Isso ficou mais evidente na Venezuela, onde uma tentativa de golpe apoiado pelos EUA, em abril de 2002, não foi adiante por causa da mobilização do povo venezuelano em defesa de seus direitos democráticos. Todas as tentativas posteriores da oligarquia venezuelana, em conluio com o Departamento de Estado dos EUA, para se livrar de Hugo Chávez, resultaram em humilhação, por causa do constante apoio e da organização das classes exploradas do país a favor de Chávez. Tornou-se claro, para a classe dominante dos EUA, que já não era mais possível contar com a oligarquia venezuelana, que havia perdido o controle direto sobre a situação política. Além disso, o levante popular que a Venezuela testemunhou na década passada abriu as comportas para a organização antiimperialista do continente, o que resultou na eleição de vários presidentes de esquerda. Nesses países latinos, além do bloqueio à agenda neoliberal dos EUA, houve também a criação de uma alternativa para as políticas de livre comércio estadunidense. A Alternativa Bolivariana para a América Latina e o Caribe (ALBA), iniciativa de Venezuela e Cuba, começou a construir um bloco comercial com base na troca, de acordo com as necessidades das diferentes nações, em lugar de enviar lucros às corporações estadunidenses. Enquanto a ALBA precisa se desenvolver mais substancialmente, a fim de garantir seus compromissos, em especial no que diz respeito à organização das bases populares – que devem determinar suas prioridades –, os EUA veem-se às voltas com o desafio de manter o domínio empresarial e político na região. Movimentos militares estadunidenses O resultado disso tudo foi a mudança de tática do governo dos EUA. Em vez de depender de meios exclusivamente econômicos e políticos para controlar a América Latina, os EUA decidiram recorrer a medidas militares, mesmo estando envolvidos em guerras no Iraque e no Afeganistão. Vejamos algumas dessas medidas. Em 2006, os EUA realizaram exercícios militares na costa da Venezuela, na chamada "Operação Parceria das Américas". Esses exercícios envolveram quatro navios, 60 aviões de combate e 6.500 tropas. Também em 2006, o Departamento de Estado classificou as ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao, com suas [dos EUA] bases militares, em conjunto com a Holanda, como a "Terceira Fronteira dos Estados Unidos". Aviões de carreira e de combate, navios de guerra, helicópteros Black Hawk, submarinos nucleares e milhares de soldados se estabeleceram nas ilhas, em particular Curaçao. Em 2009, um avião militar estadunidense, saído da base de Curaçao, foi interceptado no espaço aéreo venezuelano. Em 2008, os EUA reativaram a IV Frota, fora de operação desde 1950, para patrulhar as águas do Caribe. Atualmente, ela pode ser utilizada como base flutuante, a partir da qual os EUA podem realizar ataques militares em toda América Central e do Sul. Em 2009, os EUA fizeram um acordo para montar sete bases militares na Colômbia, a fim de estacionar nelas de 250 a 800 soldados estadunidenses e 600 civis, assumindo, de modo efetivo, o controle sobre essas instalações. A iniciativa foi amplamente denunciada em toda a América Latina como uma ação para intimidar a Venezuela. Em dezembro do mesmo ano, um drone estadunidense decolou de uma das bases colombianas e violou o espaço aéreo venezuelano. De 2009 a 2010 os EUA atuaram nos bastidores para legitimar o golpe militar que depôs, em Honduras, o presidente legalmente eleito Manuel Zelaya, que alinhara a nação com a ALBA. Parte dos motivos que levaram os EUA a essas ações foi manter o controle da base aérea Soto Cano, com seus 550 soldados estadunidenses e 650 civis de EUA e Honduras. Em 1980, os EUA haviam usado essa base como campo de treinamento e plataforma de lançamento para os contraterroristas da Nicarágua e para os esquadrões da morte salvadorenhos, que atuavam contra o Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Há boas razões para suspeitar que, atualmente, essa base aérea voltará a ser usada para operações semelhantes. Em 2009, um acordo entre EUA e Panamá levou à abertura de duas bases militares neste último país. É a primeira vez, desde 1999, que as forças militares estadunidenses estacionam no Panamá. Guerra contra as drogas? A justificativa dada para a maioria dessas medidas foi a luta contra o tráfico de drogas – a mesma desculpa da escalada militar na Costa Rica. No entanto, nunca houve redução do narcotráfico. Ao contrário, a entrada das forças militares estadunidenses têm sido acompanhada por um aumento no tráfico de drogas, como aconteceu na Colômbia e no Afeganistão. Com base nesse registro, só se pode concluir que a lógica da "guerra às drogas" é uma falsa questão, usada como propaganda e relações públicas, e não a motivação real da militarização. O envio de tropas e equipamentos militares à Costa Rica é o mais recente de uma série de movimentos que os EUA realizam na América Latina e que tem como objetivo o uso de ameaças e armas para reverter a resistência das forças populares antiimperialistas na região. Os EUA jogam com a possibilidade de erupção de uma conflagração continental, que geraria lucros para as grandes corporações. Embora seja duvidoso que neste momento os EUA queiram se engajar diretamente em um conflito militar com, possivelmente, a Venezuela, os preparativos para essa possibilidade estão sendo feitos. O mais provável, a curto prazo, é que os militares estadunidenses usem suas forças para empreender sabotagem e intimidação, na esperança de reverter o apoio dos países alinhados com a ALBA. Também é muito possível que as forças estadunidenses deem sustentação a exércitos controlados, como o da Colômbia, em conflitos militares que se alinhem aos interesses dos EUA. No entanto, esse é um jogo perigoso. Mesmo no curto prazo, a classe dominante dos EUA pode arrastar o país para outro conflito direto que, apesar de suas intenções, pode se alastrar e envolver inúmeras outras nações. Paz e solidariedade internacional Enquanto os trabalhadores estadunidenses sofrem com o desemprego, o sistema de saúde insuficiente, os drásticos cortes na educação e nos serviços sociais, bem como com a catástrofe ambiental do golfo do México, criada pela cumplicidade entre o governo Obama e a BP, as prioridades da classe dirigente dos EUA estão em outro lugar. Ela está preocupada em investir seu dinheiro nas questões militares e suas ameaças de guerra. O objetivo dessa guerra, ou guerras, seriam as classes trabalhadoras e os movimentos populares da América Latina, cujo único crime foi lutar para libertar-se da superexploração e da repressão policial. A elite política e econômica dos EUA é a mesma que nega aos trabalhadores estadunidenses o que é deles por direito, a mesma que se opõe aos esforços dos trabalhadores e camponeses do continente para fortalecer-se. É tarefa do movimento pacifista recusar não apenas as guerras no Iraque e no Afeganistão, mas também prevenir futuros conflitos armados dos EUA na América Latina. Onde quer que os ativistas da paz busquem mobilizar as pessoas contra a guerra, devem também educá-las sobre os movimentos militares imperialistas dos EUA na América Latina. Mais do que isso, é necessária solidariedade internacional para combater o que a elite estadunidense vem fazendo nas Américas Central e do Sul. Recentemente, houve um evento que, de certo modo, começou a preparar essa solidariedade. Em Sanare, na Venezuela, de 21 a 25 de junho, aconteceu uma série de encontros intitulada “Encontro das Américas: resistir à militarização e promover a cultura de paz”. Participaram delegados de organizações de 19 nações do continente, incluindo a School of the Americas (SOA) Watch, dos EUA. Saiba mais sobre esse encontro em www.soaw.org. Mark Vorpahl é líder sindical, pacifista e ativista s a union steward as well as an anti-war and Latin American Solidarity Network [Rede de Solidariedade à América Latina]. Para contatá-lo: portland@workerscompass.org. |
terça-feira, 20 de julho de 2010
Guerra na América Latina?
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