quinta-feira, 24 de junho de 2010

A questão palestina e o Oriente Médio



“Trata-se de um documento em que uma nação promete solenemente, a uma segunda nação, o território de uma terceira nação.” 
[Arthur Koestler, sobre a Declaração de Balfour]

Acrescentemos que essa terceira nação, a Palestina, era parte do Império da uma quarta nação, a Turquia. Acrescentemos, também, que ainda há dúvidas sobre a lisura da assembleia da ONU que decidiu pela partilha da Palestina, e sobre a legitimidade de a organização mundial tomar uma decisão como essa, contrária aos interesses de um povo, o árabe, e sem considerar que no território partilhado existia uma nação, a Palestina.
Essas são algumas das questões que a pesquisa que realizo, sobre a questão palestina, vem suscitando. Iniciei a pesquisa em 2003-2004, quando uma colega da USP, descendente de árabes como eu, me indicou o livro A guerra da Palestina, de André Gattaz. Fiquei chocada com o que li, e a partir de então não parei mais de investigar o assunto. Por conta própria, procurei fontes, verifiquei a lisura dos autores que escreviam os livros que eu descobria nas livrarias e na internet, entrei em contato com organizações pró-Palestina em vários países, com pacifistas judeus, com antissionistas dentro e fora de Israel, na tentativa de entender o que acontecia entre os dois países. Digo países porque, para mim, a Palestina é um país. Invadido, massacrado, mas um país.
Reuni um pouco da minha pesquisa na palestra que dei, em 22 de junho, no Think Tank Granja Vianna. Já convencida da responsabilidade dos sionistas pela Nakba e todas as suas consequências, decidi abordar o uso político que o sionismo fez do Velho Testamento e dos acontecimentos da Segunda Guerra para obter os privilégios que levariam à partilha da Palestina. Falei também sobre a Stern Gang, o Irgun e a Haganá, a destruição de quase 600 vilas palestinas, a matança da população simples e desarmada, a expulsão dos árabes de suas terras, os quase sete milhões de refugiados e o dia a dia de terror que persiste ainda hoje nos territórios ocupados por Israel. Fiz questão de explicar o que é terrorismo e o que é resistência, para esclarecer os papeis das facções que trabalham pela liberdade da Palestina, entre as quais Fatah e Hamás. Mostrei que apenas o Estado, por ter o monopólio da força, pratica terrorismo ao utilizá-la contra os cidadãos. Aqueles que resistem não são terroristas. São grupos defendendo a própria vida, e a vida de seus concidadãos. 
Hoje posso dizer que o Estado de Israel, criado artificialmente, e sobre o sangue palestino, não tem legitimidade. Estou quase convencida de que a solução de dois Estados, Palestina e Israel, é uma injustiça. Preciso ler mais a respeito, mas hoje me inclino a aceitar a solução de um único Estado -- a Palestina -- habitado por árabes e judeus, com instituições que representem os interesses de ambos, com instrumentos que garantam o respeito aos direitos humanos, com um governo efetivamente democrático. É evidente que a decisão será tomada pelos povos que hoje habitam a Palestina, mas isso não me impede de pensar em saídas para o impasse.
A seguir, você conhecerá a parte escrita da palestra. Infelizmente, o restante, e os debates acalorados, não foram gravados. Numa outra postagem comentarei as discussões que tivemos.
Desde já agradeço a Roberto Ulhôa Cintra, criador do Think Tank Granja Vianna, o convite para a palestra e a garantia do clima democrático em que ela se realizou. Pude falar, com total liberdade, o que ninguém sabia, dado o silêncio da mídia e a propaganda massiva do biliardário sionismo mundial. 

Desproporcional?

A questão palestina e o Oriente Médio
Quando olhamos para o OM hoje, lugar de conflitos, guerras e, segundo analistas internacionais, possível palco de uma hecatombe nuclear correspondente a várias Chernobyl, concluímos ser uma ironia que aquela região seja considerada o “berço da civilização”. A Mesopotâmia, terra entre dois rios, o Tigre e o Eufrates, fica no coração do OM. Não fossem esses dois rios, a região seria inabitada. Eram eles os responsáveis pelo biossistema que permitiu o desenvolvimento da vida ali.
Como toda região do mundo antigo, a Mesopotâmia e sua vizinhança, que hoje conhecemos como OM, foi ocupada por vários grupos humanos, ou tribos. Em geral, eram pastores nômades que aos poucos se tornavam agricultores e se fixavam na terra. Muitos vinham da África – vou usar os nomes atuais, mas sabemos que àquela época os continentes não tinham nomes, nem as pessoas conheciam a noção de “continente”.
Várias dessas tribos foram forças dominantes em alguns ou em muitos dos territórios do OM. Mas também houve conquistas por parte de conquistadores estrangeiros, que anexaram aquelas terras a seus impérios. Vamos ver uma animação dessas ondas de ocupação e de conquista.
Foram muitos os grupos humanos que viveram ali. Em função do clima e das condições ambientais, que mudavam com as estações, esses grupos alternavam seus meios de sobrevivência. Quando havia chuva, semeavam e colhiam; quando havia seca, saíam para pastorar e depois voltavam, para semear e colher etc. Nós os conhecemos hoje como assírios, hititas, filisteus, semitas, cananeus, fenícios, hicsos, hapirus, babilônicos, persas etc.
Até meados dos anos 70 do século XX, acreditava-se que a história desses povos, particularmente a de Israel, estivesse contada na Bíblia. Acreditava-se também que o movimento sionista, responsável por criar o Estado de Israel no território pertencente à Palestina, cumpria o desígnio bíblico da volta dos judeus ao Oriente Médio, onde eles, como “povo escolhido por Deus”, construiriam o terceiro templo de Salomão, em Jerusalém, e com isso promoveriam a paz entre os povos.
Nos anos 1970, porém, essa versão dos fatos mudou radicalmente. Por um lado, porque cientistas de várias áreas do conhecimento provaram que o relato bíblico não correspondia aos resultados das pesquisas arqueológicas, geológicas, documentais e históricas realizadas no OM. Por outro lado, porque os arquivos contendo documentos e textos dos sionistas, até então considerados secretos, foram colocados à disposição dos pesquisadores em 1978 e revelaram que a ocupação da Palestina se deu de um modo completamente diferente daquele que os sionistas divulgavam. A versão oficial da criação de Israel era mentirosa.


1.  Desenterrando a Bíblia

Nos anos 1970, cientistas e historiadores começaram a consolidar os resultados de pesquisas arqueológicas, geológicas, documentais e históricas realizadas no OM. Com isso, mostraram ao mundo que tais pesquisas contavam uma história diferente daquela que estava na Bíblia, em particular no Velho Testamento. Com exceção de um ou outro fato, uma ou outra personagem, quase nada do conteúdo do Velho Testamento – a Torá dos judeus – pôde ser provado nas pesquisas de campo.
Cito um trecho do texto de Aírton José da Silva, doutor em teologia dedicado aos estudos bíblicos e à história de Israel:
Entre outras coisas, o consenso dizia que a Bíblia Hebraica era guia confiável para a reconstrução da história do antigo Israel. Dos Patriarcas a Esdras, tudo era histórico. Se algum dado arqueológico não combinava com o texto bíblico, arranjava-se uma interpretação diferente que o acomodasse ao testemunho dos textos, como no caso da destruição das (inexistentes) muralhas de Jericó pelo grupo de Josué.
Nos anos 1970 esse panorama se modificou. Os historiadores passaram a escrever uma nova história de Canaã, da Palestina, de Israel. A Bíblia foi abandonada como fonte histórica – coisa que, na verdade, nunca foi – e passou a ter apenas valor teológico e religioso. Os pesquisadores foram além: descobriram que, das situações relatadas no Velho Testamento e que puderam ser provadas, a maioria acontecera bem depois do que informavam os textos sagrados. Fazendo novos estudos e comparações, eles concluíram que a Bíblia começou a ser escrita no século VII depois de Cristo.
O trabalho mais exaustivo, e por isso mesmo merecedor de reconhecimento internacional, foi o de dois cientistas judeus: o arqueólogo Israel Finkelstein, da Universidade de Telavive, e Neir Asher Silberman, diretor de interpretação histórica do Ename Center for Public Archaeology and Heritage Presentation, da Bélgica. Os dois publicaram um livro que virou referência na área: A Bíblia desenterrada: uma nova visão arqueológica do antigo Israel e da origem de seus textos sagrados [The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: The Free Press, 2001]. No Brasil, o livro foi publicado em 2003 pela editora Girafa, sob o nome A Bíblia não tinha razão. [O livro está fora de catálogo, mas pode ser encontrado em sebos. Comprei o meu no portal da Estante Virtual].
            Fundamentados em décadas de pesquisas arqueológicas realizadas em Israel, Jordânia, Egito, Líbano e Síria, os autores examinam os principais livros "históricos" da Bíblia, especialmente a Torá e Os Profetas Anteriores (a obra histórica deuteronomista), que narram a saga do povo de Israel do suposto começo até o suposto exílio babilônico em 586 a.C.
            E o que dizem as descobertas recentes da arqueologia? Dizem, por exemplo, que, apesar da narrativa bíblica, não há sinais de monoteísmo na época de Abraão, que não existe nenhuma evidência de um êxodo do Egito, que a história da conquista da terra de Canaã pelos hebreus não é sustentável e que jamais existiu um império davídico-salomônico.
   Finkelstein e Silberman sustentam que a arqueologia, hoje, dá suporte à hipótese de que tanto a Torá como o Deuteronômio foram escritos no século sétimo a.C. E explicam, na p. 14 do livro:
Nós focalizaremos Judá do final do século oitavo e do século sétimo a. C., quando este processo literário [o Velho Testamento] começou para valer, e defenderemos que boa parte do Pentateuco é uma criação da monarquia recente [do século VII a.C.] para defender a ideologia e as necessidades do reino de Judá e que, como tal, ele está intimamente ligado à História Deuteronomista. E nos alinharemos com aqueles estudiosos que argumentam que a História Deuteronomista foi compilada, principalmente, no tempo do rei Josias [640-609 a.C.], a fim de oferecer uma legitimação ideológica para ambições políticas e reformas religiosas específicas.
            É preciso dizer que, antes de Filkenstein e Silberman, muitos arqueólogos e historiadores escreveram teses e livros para provar que a Bíblia não podia ser considerada fonte histórica. Por isso, pesquisadores estadunidenses perderam seus empregos nas universidades e tiveram de sair dos EUA para continuar trabalhando. O mesmo aconteceu em Israel, onde os livros que questionavam a Torá e a história bíblica do povo judeu foram proibidos e seus autores, banidos do país. Diz Naeim Giladi, no prefácio de seu livro Os escândalos de Ben Gurion: como a Haganá e o Mossad eliminaram judeus (p. 3):
         Eu já sabia que, antes de publicar um livro em Israel, é preciso pedir permissão aos censores desta assim chamada “democracia”. Quando os censores concluem que o livro pode ser perigoso ao Estado, proíbem sua publicação. Se o autor insiste e recebe permissão para publicar, os censores cortam tanto o texto que o livro se torna incompreensível. Se o autor decide publicá-lo sem a permissão dos censores, pode ser preso, e ficará encarcerado por tanto tempo quanto as autoridades decidirem.
Giladi continua, na p. 4:
Enquanto eu escrevia este livro, dois de meus colegas jornalistas, bem conhecidos em Israel, foram presos e trancados numa cela por denunciar o envolvimento da polícia secreta israelense, o Mossad, no sequestro, em Paris, de Mehdi Ben-Barka, líder socialista muito popular em Marrocos. A imprensa estrangeira já publicara essa informação. Mesmo assim, os jornalistas, Maxim Gilan e Samuel Mour, foram acusados de crime contra a segurança nacional e ficaram presos por mais de seis meses. Mais do que isso, a mídia israelense foi amordaçada e não lhe permitiram mencionar a prisão dos dois jornalistas. Se dependesse das autoridades israelenses, ambos ficariam presos o resto de suas vidas.
            Tudo isso aconteceu no século XX. E, apesar dos percalços, as pesquisas acadêmicas continuam, recolhendo provas cada vez mais incontestáveis de que a Torá foi escrita na época de Josias e que não corresponde aos fatos históricos tal como eles realmente aconteceram.
            Muito antes, no século XVII, um filósofo holandês de origem judia, Benedito de Espinosa, já questionara a Torá, que estudara desde a infância, com os mais renomados mestres rabinos. Ele teve acesso aos textos originais, escritos em hebraico antigo, uma língua que já se perdeu, e procedeu a uma profunda análise filológica das Escrituras. Sua conclusão pode ser resumida assim: a Torá foi escrita com objetivo político, para legitimar o poder de quem já o tinha (no caso, como se descobriu no século XX, o de Josias).
            Como isso significa mentir para manipular grupos humanos que acreditaram piamente nas Escrituras, ou, em outras palavras, como a Bíblia tornou-se a referência de vida para milhões de pessoas, e todas elas foram enganadas por profetas que não eram profetas e por um personagem, Moisés, que, segundo as pesquisas arqueológicas e documentais, nunca existiu, a denúncia dessa manipulação encontra resistência entre os fieis. Entre os judeus, por exemplo, continua-se a difundir como verdade histórica o relato bíblico. E isso, em Israel, significa estimular a intolerância e o preconceito contra todos os povos, considerados “inferiores” porque, segundo a Bíblia, só os judeus são o “povo escolhido” por Deus. O estrago que essa invenção humana provocou e provoca pode ser visto nos ataques diários da IDF, o exército israelense, à população árabe civil e desarmada, no ataque que as forças navais sionistas realizaram à Flotilha da Liberdade, na madrugada de 31 de maio de 2010, e nos incontáveis assassinatos cometidos pela IDF e pelo Mossad dentro e fora de Israel.
            Os relatos da Bíblia, tidos como verdadeiros durante milênios, ainda hoje são usados para justificar uma pretensa superioridade dos judeus em relação aos demais povos da Terra. E serviram também para justificar um suposto “direito” dos judeus de ocupar a Palestina para nela construir Eretz Israel, ié, a Terra de Israel.
            As pesquisas filológicas, arqueológicas, geológicas, documentais e históricas comprovaram que, ao contrário do que os sionistas pregavam e pregam, os judeus não têm nenhum “direito” histórico ou divino de ocupar a Palestina. Esse argumento caiu por terra. Por demonstrar que ele era falso, Espinosa foi expulso da Sinagoga de Amsterdã, no século XVII, e considerado maldito, tendo suas obras proibidas; também por esse motivo as autoridades de Israel, nos séculos XX e XXI, proíbem os livros que contrariam sua versão da história de Israel e banem vários de seus autores. Provar que a Bíblia foi uma peça literária escrita ao longo de vários séculos, iniciada no século VII a.C com o objetivo de manipular a fé dos crentes a fim de manter um rei no poder, tira a legitimidade do discurso e das práticas sionistas.
            Antes de passar para a segunda parte desta história, devo dizer que não me coloco contra a fé dos judeus, dos cristãos ou de quem quer que seja. Respeito aqueles que têm fé. Eu me coloco contra o uso político de textos considerados sagrados, sejam eles a Torá, a Bíblia ou o Corão. Esse uso leva ao fundamentalismo, à intolerância e à violência. Veja-se o uso político que o sionismo fez da Torá, usando-a para justificar seus atos de violência contra os árabes palestinos, antes e depois da ocupação da Palestina.



2.  2. Desmascarando o sionismo
Quando os historiadores judeus se debruçaram sobre os documentos dos sionistas, a partir de 1978, ficaram perplexos. Muitos mal podiam acreditar no que liam; outros entraram até mesmo em depressão e tiveram de iniciar tratamento psicológico e medicamentoso. Tudo aquilo em que acreditavam – o altruísmo dos sionistas europeus, a ocupação pacífica da Palestina, a generosidade com que tratavam seus vizinhos, considerados rudes e violentos – era uma grande mentira.
Eles descobriram que, além da Bíblia, os campos de extermínio da Alemanha e a tragédia conhecida como Holocausto também eram usados como instrumento de dominação política. Os sionistas manipularam esses acontecimentos para transformar os judeus em vítimas e para criar culpa nos europeus, a fim de que estes apoiassem a criação de um Estado judeu.
            Pior ainda: os sionistas, amparados por judeus ricos como os Rothschild, tiveram a chance de tirar seus conterrâneos dos campos de extermínio e não o fizeram. Como conta o judeu Levi Brenner em seus livros[1], com base na documentação que pesquisou, a organização mundial dos sionistas concluiu que devia deixá-los morrer porque isso facilitaria as negociações para a obtenção de apoio à criação do Estado de Israel. “Precisamos de sangue judeu para levar à mesa de negociações”, argumentou o representante da organização. Brenner conta, em artigo publicado na revista eletrônica estadunidense Counter Punch em 23/12/2002, que pesquisou 51 documentos, incluindo 35 cartas, memorandos, artigos e informes, datados da época de Hitler e depois disso. Sete haviam sido escritos pelos nazistas, e dentre eles se encontravam as memórias de Eichmann, registradas na Argentina, sobre o colaboracionista húngaro Razso Kasztner. A maioria dos documentos estava completa. O restante era composto de textos tirados de informes importantes.
            Brenner escreve, em seu artigo:
  Os judeus ainda sabem pouco sobre o sórdido passado dos sionistas. Hoje, porém, apenas fanáticos programados podem apoiar o sionismo depois de conhecer a verdade. Prova disso são os resultados da Pesquisa sobre a Identidade dos Judeus Estadunidenses, de 2001: menos de 22% de todos os judeus se declararam sionistas.
Nesses 51 documentos, Brenner descobriu que os sionistas mantiveram encontros com Hitler para conseguir sua adesão ao estabelecimento do Estado de Israel. Cito Brenner:
Em novembro de 1942, o rabino Michael Dov-Ber Weismandel, ativista judeu na Checoslováquia, aproximou-se de Dieter Wisliceny, representante de Adolph Eichmann: “Quanto seria necessário para salvar os judeus europeus?”. Wisliceny foi a Berlim e voltou com a resposta. Por meros 2 milhões de dólares eles [os sionistas] salvariam todos os judeus da Europa ocidental e dos Bálcãs. Weismandel enviou um mensageiro, com essa proposta, até a Organização Sionista Mundial, na Suíça. Seu pedido foi recusado. O representante da organização, Nathan Schwalb, mandou dinheiro suficiente para salvar apenas Weismandel e seu pessoal. Schwalb escreveu: “Sobre os apelos vindos de seu país, devemos saber que todas as nações aliadas estão derramando muito de seu sangue, e, se nós não sacrificarmos sangue algum, com que direito mereceremos ir à mesa de negociações, no final da guerra, quando eles dividirem as nações e as terras? [...] Apenas com sangue conseguiremos nossa terra”. (p. 237 de 51 Documents: Zionist Collaboration With the Nazis).
Brenner também escreve, à p. 238:
Em vez de o sionismo ser a esperança dos judeus, o sangue dos judeus tornou-se a salvação política do sionismo.
Há mais. Na guerra, o grupo terrorista Stern, sionista, lutou ao lado de Hitler – depois realizaria ações armadas contra palestinos desarmados, expulsando-os da Palestina, matando-os, destruindo suas casas e plantações. E não é segredo para ninguém que um dos ideólogos do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, tinha admiração por Mussolini, era seu amigo e sonhava com um Estado judeu nos moldes do fascismo italiano. Brenner, citando um documento dos terroristas da Stern Gang, mostra que o objetivo era construir um Estado judeu nos mesmos moldes da Alemanha nazista. Cito:
As facções sionistas competiam entre si pela honra de aliar-se a Hitler. Em 1940-1941, a Stern Gang, à qual pertencia Yitzhak Shamir, mais tarde primeiro-ministro de Israel, apresentou aos nazistas um documento chamado “Dados fundamentais sobre a proposta de uma Organização Militar Nacional (NMO) na Palestina (Irgun Zvai Leumi) a respeito da solução da questão judaica na Europa e a participação da NMO na guerra ao lado da Alemanha”. Avraham Stern e seus seguidores anunciaram que “a NMO, familiarizada com a boa vontade do governo do Reich alemão e de suas autoridades para com as atividades sionistas dentro da Alemanha e a seus planos de emigração, é da opinião de que:
1.         existem interesses comuns entre o estabelecimento de uma nova ordem na Europa, em conformidade com a concepção alemã [nazista], e as verdadeiras aspirações nacionais do povo judeu [...];
2.         a cooperação entre a nova Alemanha e um Estado nacional hebreu renovado é possível;
3.         o estabelecimento do histórico Estado judeu, em base nacional e totalitária, ligado ao Reich por meio de um tratado, seria do interesse da manutenção e do fortalecimento futuro da posição alemã no Oriente Médio.
Dessas considerações segue-se que a NMO na Palestina, sob a condição de que as acima mencionadas aspirações nacionais do movimento de libertação de Israel sejam reconhecidas pelo Reich alemão, oferece-se para tomar parte ativa na guerra ao lado da Alemanha”.
   Mas... o que é o sionismo? É um movimento surgido no século XIX no centro e no leste da Europa. Ali, o desenvolvimento do Estado-nação emancipou a população, incluindo os judeus, garantindo a todos direitos civis, igualdade política e legal. Isso levou alguns judeus a temer a perda ou a dissolução de sua “identidade” e de sua cultura. Esse temor, associado à onda nacionalista que dominava a Europa de então, fez que alguns judeus acreditassem que os elos religiosos e “raciais” constituíam uma “nacionalidade judaica”. Ora, concluíram eles, se tinham uma nacionalidade, deveriam ter também uma nação, como todas as outras.
Ao longo de todo o século XIX alguns escritores judeus escreveram sobre o assunto, defendendo o “retorno” dos judeus à Palestina. Mas foi apenas em 1896, quando Theodor Herzl publicou um livro intitulado O Estado judeu, que a ideia começou a tomar forma. Herzl então iniciou um périplo diplomático para defender suas ideias, que não foram bem recebidas. Em especial no Império Otomano, ao qual a Palestina pertencia. O imperador não se mostrou nem um pouco disposto a ceder aquela parte de seu território, onde uma população árabe e judia estava estabelecida há séculos.
[seguiu no oral – não deu tempo de escrever o resto]

Questões:
  1. 1.    Inglaterra e a França detinham legitimidade para tomar regiões do Império Turco-Otomano, no fim da I Guerra Mundial, através do acordo de Sykes-Picot?
  2. 2.    O mandato dado à Inglaterra pela Liga das Nações era ou não compatível com o princípio da autodeterminação dos povos?
  3. 3.    A ONU detinha legitimidade para votar a partilha da Palestina em 1947 e entregar mais da metade da terra natal de um povo para outro povo, vindo de vários países?
  4. 4.    O que levou os EUA a se tornar o maior apoiador do projeto sionista depois da hostilidade britânica?
  5. 5.    Por que a votação da partilha na ONU foi adiada quando se percebeu que o resultado dessa votação seria contrário à partilha?
  6. 6.    Quem foi o responsável pelas pressões e pela “compra de votos” que deu a Israel parte da Palestina?


“A decisão de partilhar a Palestina, criando um Estado Judaico, é um dos mais sérios erros da política contemporânea. As mais surpreendentes consequências vão resultar desse aparentemente pequeno fato. Também não é ofensivo dizer que esse pequeno fato terá a sua participação em sacudir o mundo até as suas fundações”.
Michel Chiha, 5 de dezembro de 1947 – cinco meses antes da criação do Estado de Israel.


[1] The Iron Wall: Zionist Revisionism from Jabotinsky to Shamir. London: Zed Books, 1984; Zionism in the Age of Dictators. Croom Helm, 1983. 51 Documents: Zionist Collaboration With the Nazis. Os dois primeiros podem ser encontrados, em inglês, em www.marxists.de/middleast/brenner/index.htm

Mapa Palestina e Israel






0 comentários:

Postar um comentário