Dois dias atrás, a Israel National News anunciou que os Estados Unidos enviaram 11 navios de guerra ao Mar Vermelho, para impedir que uma flotilha iraniana de ajuda humanitária a Gaza, escoltada pela marinha do Irã, chegue ao litoral da Palestina. Israel anunciou que o governo egípcio deu permissão para que a frota estadunidense, acompanhada de um navio de guerra israelense, passe pelo Canal de Suez assim que a flotilha iraniana se aproximar de Gaza.
E que ninguém acuse o governo iraniano de provocação. O país é soberano para tomar suas decisões e executá-las, e vem afirmando essa soberania mesmo sob o risco de ser atacado por Estados Unidos e Israel. As sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU -- com exceção de Brasil e Turquia, que votaram contra as sanções, e Líbano, que se absteve -- não fizeram mais do que desdenhar do país persa. Lembremos que ele abriu mão do direito de tocar por conta própria seu programa nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio, ao assinar o acordo com Brasil e Turquia. Foi uma concessão histórica, que Israel e seu braço armado, os Estados Unidos, fizeram questão de não reconhecer.
Um dia antes de o acordo ser assinado, um domingo, o estado-maior de Israel, bem como os líderes dos partidos israelense, alguns militares de alta patente já aposentados e o pessoal da chamada "inteligência" reuniram-se em Telavive para um wargame que discutiu a posição do Irã. A conclusão foi a de que um Irã nuclearizado poria em risco a existência de Israel -- a velha desculpa-padrão dos sionistas -- e que era preciso detê-lo.
Na ocasião, Tzipi Livni, líder do Kadima, o maior partido do Knesset (o parlamento israelense), exigiu que os Estados Unidos, nas palavras dela "o representante do mundo livre", invadisse o Irã. Mas alguém a lembrou de que, metidos em duas guerras, no Iraque e no Afeganistão, os EUA não teriam fôlego para patrocinar outro conflito armado. Na falta de uma guerrinha, que tal algumas sanções? Dito e feito: dois dias depois dona Hilária Clinton anunciou o castigo ao Irã.
O fato é que Brasil e Turquia, ao entrar no circuito até então exclusivo de Israel e EUA, jogaram areia nos planos dos belicosos parceiros. E desmascaram as verdadeiras intenções de ambos, apresentadas, na impossibilidade de uma declaração de guerra, na forma das sanções. Mas a ideia da guerra, claro, não foi afastada. Bastava esperar uma ocasião. Que se apresentou agora, com a flotilha iraniana.
O Irã sabe que o envio de ajuda humanitária a Gaza seria rechaçado militarmente. Por que, então, insistiu na ideia?
Algumas hipóteses: porque, como todos os países do Oriente Médio, não suporta mais as diatribes impunes de Israel; porque está cansado, como todos os países do Oriente Médio, de esperar que o mundo saia de sua omissão criminosa diante dos sucessivos delitos cometidos por Israel; porque, ao contrário de Iraque e Afeganistão, tem uma estrutura capaz de suportar um ataque militar; porque sabe que, se Israel e EUA bombardearem suas usinas nucleares, o estrago será tão grande que o mundo terá de tomar providências contra ambos -- caso o mundo sobreviva à radiação, naturalmente.
Sejamos sensatos: Israel tem, no mínimo, uns 300 mísseis atômicos. Precisa usá-los antes que se tornem obsoletos. Imaginem isso tudo, mais as armas estadunidenses, estourando nas unidades nucleares do Irã, e calculem a quantidade de radiação que vai se espalhar pelo planeta. Mais: o Oriente Médio receberá essa radiação de maneira mais impactante. Israel não escapará de seu próprio veneno.
Ou o mundo impõe sanções pesadas a Israel, pelo desrespeito constante aos direitos humanos, pela não observância do direito internacional, pelos crimes cometidos diariamente contra os árabes, pelo terrorismo cotidiano e pelo inferno em que transformou a vida de seus vizinhos no Oriente Médio, ou terá de pagar o preço de seu silêncio.
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