domingo, 7 de agosto de 2011

Direto da Ásia 7/8/2011



O encontro Hamás-Fatah hoje no Cairo

  • Foi produtiva, dentro do possível, a reunião entre os representantes dos dois principais partidos da Palestina, realizada hoje no Cairo. Azzam Al-Ahmad, pelo Fatah, e Mousa Abu Marzouk, pelo Hamás, concordaram em quatro pontos importantes:
         a) libertar os prisioneiros políticos uma da outra (eles estão nas celas de Gaza e da Cisjordânia);
         b) formar um comitê conjunto para supervisionar o restabelecimento das instituições fechadas quando o    Hamás assumiu o poder em Gaza;
         c) emitir passaportes palestinos;
        d) realizar nova reunião no começo de setembro, para discutir o futuro governo da unidade e temas relativos à segurança.
  • Sami Abu Zahrim porta-vos do Hamás, considerou o encontro importante por manter a confiança do povo palestino e refletir "a seriedade de ambas as partes para implementar a unidade".
  • Quanto a Gilad Shalit, prisioneiro israelense em poder do Hamás, terá de esperar nova oportunidade. Também a esperarão os milhares de presos políticos palestinos que Israel mantém em suas celas.



Terremoto no Mediterrâneo

  • Ou o pessoal da Geological Survey dos EUA (http://www.usgs.gov/) não sabe onde fica o Mar Morto ou não sabe ler mapas. Eles anunciaram um terremoto hoje, no Mediterrâneo, perto da costa de Israel, como sendo na "região do Mar Morto". Veja, no mapa que eles mesmos publicaram, a localização do epicentro.

Para os acadêmicos da USGS, o Mar Morto fica no Mediterrâneo...
  • O tremor foi fraco -- 4.1 na Escala Richter --, mas o mais forte, em 20 anos, nesta região. Ocorreu a 10 km de profundidade e não provocou danos nem mesmo no litoral. Em Jerusalém, a cidade mais próxima de onde estou, a 125 km do epicentro, poucas pessoas sentiram-no, e muito de leve. Eram 11h52 aqui (5h52 Me SP e RJ).
  • Já a agência de notícias Ynet afirma que o epicentro está localizado a 60 km de profundidade e a 800 km da costa. Afirma também que tremores foram sentidos em toda a região costeira e em Haifa. Os dados são do Instituto Geofísico de Israel.
  • Rami Hofstetter, diretor da divisão sismológica do Instituto, disse que o terremoto foi uma "ocorrência rara" tanto em potência como em localização. "A área em que ele aconteceu é pouco ativa", declarou ele, e alertou: "Mas pode ser um sinal, um aviso, de um início de movimentação nas placas tectônicas".
  • Já estamos de sobreaviso. Em Bil'in o risco é mínimo, pois as casas têm no máximo três andares. Além disso, é fácil sair para a rua e alcançar terrenos baldios, ou o campo. 
  • Em Jerusalém, grandes avenidas, parques e praças também ajudam a população. Portanto, todos muito tranquilos.


"Nunca antes neste país...

  • ... tanta gente se uniu para mudar o futuro". Lula? Não. Itzik Shmuli, líder da União Nacional dos Estudantes, de Israel..
  • "Temos poder para mudar, para exigir um futuro melhor", afirmou Shmuli. "Os políticos estão em pânico. Sr. Primeio Ministro [Netanyhau], não temos mais vergonha de lhe dizer abertamente: o que o senhor viu hoje não foi o bastante". Tradução: vem mais mobilização de massa por aí.
  • Mãe de cinco crianças, Mali foi taxativa: "As pessoas sabem que o governo falhou em mostrar interesse por você, por mim. Em vez disso, ele só cuida daqueles que são muito ricos. Isso está errado e precisa mudar."
  • Um dos cartazes traria Netanyhau montado num porco, com os dizeres: "Bibi, seu porco, devolva-nos o país!" 
  • Gil Sasson, um dos organizadores da mobilização popular: "Vemos um despertar coletivo sem precedentes; somos testemunhas da desilusão de um povo. O que começou como uma batalha por moradia transformou-se num movimento de protesto que cresce como bola de neve e que agora tem como objetivo uma ampla mudança no sistema [político, econômico e administrativo].

"Também quero!"
  • A extrema direita conseguiu reunir o número recorde de 100 pessoas numa passeata em Tel Aviv para protestar contra as passeatas e a mobilização das centenas de milhares de pessoas que vão à ruas diariamente pedir justiça social.
  • Os direitistas realizaram a marcha no terreno do inimigo, o bulevar Rotschild, gritando palavras de ordem racistas como "Tel Aviv para os judeus; sudaneses, voltem ao Sudão" (referência às classes populares envolvidas na luta, também composta por uma minoria de negros e mestiços).
  • Demonstrando total desconhecimento de história, teoria política, filosofia -- os conceitos mais simples, coisa de ginásio --, os extremistas acusavam a mobilização popular de "esquerdista" e "anarquista". Não a anarquia verdadeira, é claro, mas no sentido de confusão, bagunça. Para eles, a esquerda é isso.
  • É duro debater ideias com adversários que não as têm. A ignorância é inimiga do diálogo porque não tem argumentos para mantê-lo. Os ignorantes repetem refrões, lugares-comuns, slogans, frases feitas que os sionistas colocam à disposição deles em manuais e websites. 

As intrigas de Lieberman, o visionário
  • Hoje o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor, Lieberman, superou-se. Contradizendo informes dos serviços de segurança de Israel, ele afirmou que setembro será um mês "violento" e sangrento", "numa escala nunca vista aqui".
  • De onde ele tirou isso? Da própria imaginação. A resistência popular palestina é pacífica, a Coordenadoria dos Comitês de Luta Popular e a Autoridade Nacional Palestina já estabeleceram que as manifestações de setembro serão realizadas de modo pacífico, o serviço de inteligência de Israel já apurou que não haverá violência no mês em que a AG da ONU votará o reconhecimento do Estado palestino.
  • Apesar de tudo isso, o ministro Lieberman vai à mídia anunciar violência, procurando demonizar os palestinos. "Quanto mais a ANP fala que só vai operar no campo democrático, mais eu vejo preparações para violência e derramamento de sangue", ele afirmou a repórteres, no Knesset.
  • A bola de cristal do ministro deve estar falhando. Eu, que vivo na Palestina, não vejo nenhum preparativo violento. Ao contrário, a ordem aqui é evitar confrontos a todo custo.
  • A estratégia de Lieberman é bem conhecida daqueles que estudam o sionismo: colocar na outra parte a culpa que você tem; acusar a outra parte daquilo que você faz. A violência, o sangue e o terrorismo, aqui, têm uma só fonte: o exército sionista, sob as ordens do governo de que o sr. Lieberman é expoente. Acusando os palestinos daquilo que eles, sionistas, fazem, Lieberman e companhia reprimem com violência para depois ir à mídia dizer que agiram assim por "razões de segurança" -- justificativa vazia de sentido --, uma vez que "os árabes, como todos sabem, são violentos".
  • Como os sionistas afirmam isso o tempo todo, as pessoas acabam acreditando. E acreditam também nas teses das "razões de segurança", "legítima defesa" etc.
  • É a hiperrealidade em pleno funcionamento. Em ato. Desconstruamos os argumentos sionistas. Essa é uma tarefa simples: basta falar a verdade. 


sábado, 6 de agosto de 2011

Direto da Ásia

  • Mais de 300 mil pessoas -- o dobro da semana passada -- saem às ruas em Tel Aviv para protestar contra as políticas econômica e social do Governo. "O povo exige justiça social" era o slogan mais ouvido.
Multidão em Tel Aviv caminha do bulevar Rotschild até a Kaplan St., exigindo  a renúncia de Netanyhau.

  • Além de Tel Aviv, outras cidades israelenses foram palco de marchas: Jerusalém (20 mil pessoas), Kiryat Shmona (3 mil), Modi'in (5 mil), Hod Hasharon (1 mil) e Eilat (1 mil), Ashkelon (mais de 500 manifestantes), Dimona (cerca de 200), Vale de Jezreel (1 mil). As estimativas são da polícia.
  • Mas os assessores de Netanyhau disseram a ele que a "mídia" aumentou o número de participantes. O pior cego...
  • Para mostrar que a mobilização não está para brincadeiras, várias faixas exibiam os dizeres: "Renuncie, o Egito é aqui". O recado foi claro e direto, mas Netanyhau vai fingir que não ouviu. Até não lhe restar alternativa senão cair fora.
  • Na mídia israelense, os liberais saúdam o movimento. Parece que ninguém esperava que os israelenses fossem capazes de uma mobilização assim. Ao que tudo indica, nem a hásbara (a propaganda sionista) consegue mais encobrir os erros de um governo desgovernado.
  • Sabor de veneno: Netanyhau não vai dormir esta noite. Não por causa dos protestos, nem da exigência da renúncia, mas por causa de "o Egito é aqui" dos cartazes e faixas. Ele suporta tudo, MENOS ver os árabes influenciando o que quer que seja no que considera seu feudo.
  • Pior pra ele: os israelenses não escondem que se inspiraram na Primavera Árabe e nas manifestações pacíficas da Cisjordânia. Quem diria, hein?

  • Quase 200 crianças feridas e nove delas mortas. É esse o balanço da violência contra menores no primeiro semestre de 2011, segundo a ANP.
  • São números assustadores, que mostram a escalada do tratamento violento dispensado às crianças palestinas por israelenses.
  • Centenas delas são detidas todo mês e sofrem abusos, inclusive sexuais.
  • A ANP pediu que ONU e ONGs tomem medidas legais para pôr fim à impunidade de Israel em relação às violações da lei e aos abusos cometidos contra crianças palestinas, situação que já dura décadas.
  • Outra solicitação da ANP à ONU foi a implementação da resolução 1998, que protege os direitos das crianças em regiões em conflito.
  • "Israel se sobrepõe à lei humanitária internacional ao aplicar 'ordens militares' aos palestinos", denuncia a ANP.

  • Em Belém havia uma floresta. Hoje há uma colônia sionista. Esta semana o governo israelense anunciou que construirá mais 900 casas lá.
  • As novas construções bloquearão a contiguidade territorial entre Jerusalém oriental e Belém, além de colocar uma barreira a mais para inviabilizar Jerusalém leste como capital da Palestina. Quem afirma é Hagit Ofran, que monitora a atividade das colônias para o grupo Peace Now.

  • Chegou hoje ao Cairo a delegação do Hamás, chefiada por Khalid Meshal -- líder do partido no exílio --, que vai se encontrar com representantes do Fatah neste domingo, na capital egípcia. Na pauta, a agenda do "governo de transição", previsto no acordo firmado em maio por todos os 13 partidos palestinos.
  • Relembrando: Fatah e Hamás se desentenderam em 2006, depois de o Hamás vencer as eleições legislativas de 2006. A briga esquentou em junho de 2007, quando o Hamás expulsou de Gaza oficiais de segurança leais ao Fatah e à Autoridade Nacional Palestina e assumiu o controle da faixa costeira.
  • Os dois principais partidos só voltaram a se encontrar depois de intensa mobilização popular pela unidade política na Palestina e de uma série de encontros envolvendo líderes políticos, diplomatas e intelectuais.
  • Outro tema na pauta de Meshal é a troca do prisioneiro israelense Gilad Shalit por palestinos presos nas celas de Israel. Fontes confirmaram que Meshal finalmente aceitará os termos do acordo.
  • É pagar para ver, embora, politicamente, essa seja uma boa jogada. O reconhecimento do Estado palestino na ONU pode tropeçar na libertação de Shalit. Como todos sabemos, a "comunidade internacional" está se lixando para os mais de 10 mil palestinos presos em Israel -- todos presos políticos. Entre eles há 363 crianças. Eram 364, mas meu vizinho Mahmoud foi solto em julho. 
  • A grande preocupação -- ou melhor, a MINHA grande preocupação -- é a decisão de formar um governo de transição composto de tecnocratas. Impossível esquecer que decisão semelhante foi tomada na África do Sul pós-apartheid. Lá o "governo de tecnocratas", constituído por pregadores da cartilha neoliberal, implantou sua receitinha básica de como enriquecer os ricos e empobrecer os pobres e nem tomou conhecimento da Carta do Povo, com as demandas populares. Deu no que deu.
  • Há evidências de que a mesma coisa pode acontecer aqui. Mas só conto quais são depois de apurá-las.
  • Estranhamente, Abbas, presidente da ANP, vai se encontrar com Mubarak no Egito. A informação é do jornal israelense Haaretz e não consegui confirmá-la (nem negá-la). Fica o registro. A ver se os fatos o confirmam.
  • Do Cairo, Abbas voa para a Arábia Saudita, parceira de Israel e dos EUA. Mubarak, casa de Saud... Tsc, tsc, tsc... Fiquemos de olho nessa agenda esquisita, para dizer o mínimo.
  • Conversando com meus amigos israelenses do grupo Anarquistas Contra o Muro, na sexta-feira, descobri que eles, que sabem de tudo, pouco ou nada sabiam do novo projeto de lei "antiterrorismo" de Israel -- aquele que vai permitir prisões com base em denúncias sem apuração e condenação por meio de "acusações secretas", entre outras medidas a la Inquisição.
  • Se os anarquistas, sempre muito bem-informados, não têm conhecimento do projeto de lei, nem de que ele já passou pela primeira leitura (faltam só mais duas) no plenário do Knesset, o parlamento israelense, fica a impressão de que o restante da população de Israel não deve nem ter ouvido falar do tal projeto.
  • Na certeza de que o parlamento age às escondidas, aproveitando que a atenção do público está no custo de vida e na injustiça social que o alimenta, pedi-lhes que levassem a notícia às ruas e ao acampamento. É preciso impedir a aprovação desse projeto, mais um golpe da extrema direita para criminalizar, agora "legalmente", os palestinos.
  • Se transformado em lei, o texto permitirá que qualquer cidadão seja acusado de "terrorista". Basta a palavra de algum inimigo.
  • E quem garante que passeatas não violentas não entrarão no Index sionista como "atos terroristas"?
  • E quem garante que uma turma de crianças atirando pedras nos veículos do exército israelense não será considerada "grupo terrorista"?
  • O projeto legaliza prisões administrativas, impedimento de o acusado ver advogados e juízes e até mesmo de conhecer do que está sendo acusado. Nisso ele supera a Inquisição. Ao menos lá o réu sabia o que o levara à prisão, à tortura e à pena de morte.
  • Temo que grupos pacifistas e de direitos humanos sejam também considerados "grupos terroristas".
  • O projeto, além de ilegal diante da Lei Básica de Israel e do direito internacional, viola os direitos de livre expressão e de livre associação. Estimula o dedo-durismo e a vigilância de uns sobre outros.

  • Outro projeto, apresentado por 40 parlamentares de direita, muda a definição de "Estado judeu e democrático" de Israel para "lar nacional do povo judeu".
  • Segundo o projeto, o caráter judeu do país deve prevalecer sobre o caráter "democrático". O hebreu passa a ser a língua oficial.
  • O terceiro ponto é o estímulo ao aumento da imigração de judeus e verba para alocá-los.
  • Isso significa mais confisco de terras palestinas.

  • É... o pedido de renúncia feito a Netanyhau precisa ser estendido ao Knesset. Eleições gerais já!


  • Perguntaram-me se a renúncia de Netanyhau ajudaria a causa palestina. Talvez, mas sozinha a renúncia não vale muita coisa. O Lieberman ainda estará no governo, e a extrema-direita domina o parlamento.
  • A esquerda israelense não tem nenhum nome ou partido forte o bastante para liderar um processo político de mudança, de correção de rota. Por isso, no caso de eleições gerais, os israelenses não terão muita opção. A menos, claro, que o atual despertar os leve a perceber que seus verdadeiros inimigos estão à direita, no espectro político.
  • Israel não precisa de reformas, e sim de uma revolução.

  •  Seis refugiados palestinos mortos neste fim de semana -- que aqui cai na sexta e no sábado, cinco deles no campo de refugiados de Hama, ao norte de Damasco, na Síria. Os assassinos, motociclistas mascarados, passaram pelo campo atirando, disse uma testemunha. A sexta vítima vivia no campo de refugiados Ain Al-Helweh, no Líbano, e morreu numa confrontação entre facções rivais.
  • Na Síria, há vários feridos; no Líbano, oito, todos em estado grave.
  • Na Cisjordânia, as manifestações da sexta-feira contra o muro, as colônias e a ocupação foram recebidas, mais uma vez, com bombas de gás lacrimogêneo e sonoras, além de balas de metal coberto de borracha e o skank (gambá), caminhão que atira água química com cheiro ruim e forte nos manifestantes. 
  • O exército sionista ocupou Burin, vila de Nablus, impedindo a entrada e a saída de pessoas. A porta-voz do exército anunciou que a medida foi tomada para impedir que israelenses entrassem na vila.
  • Esse é um problema recorrente em Burin, Nabi Saleh, Al-Tuwani: os colonos judeus invadem as vilas, assustam os moradores, atacam crianças, queimam casas e plantações, atiram nos palestinos e os ativistas internacionais com munição letal.
  • Esta semana, foram incendiadas plantações em Turmus'Ayya (Ramallah), Burin, Awarta e Jalud (Nablus). Cerca de 400 oliveiras e almendoeiras foram danificadas.
  • Em vez de fechar as vilas, que tal perseguir e prender os colonos criminosos e levá-los aos tribunais? O que eles fazem é crime também em Israel.
  • Só que as cortes precisariam ser muito apegadas à justiça para condená-los. Os colonos extremistas têm representantes em postos-chave da administração de Israel. Segundo Uri Avnery, da associação pacifista Gush Shalom, são eles que mandam no governo, hoje.
  • E seus amiguinhos atacaram cinco ativistas internacionais que acompanhavam crianças em Al-Tuwani. Lá, nenhuma criança pode sair sozinha ou em grupos, porque os colonos atiram pedras nelas. Por isso, só saem acompanhadas de ativistas. Pois eles, que já foram vítimas até de facada, voltam a ser atacados.
  • Dona ONU, ninguém vai fazer nada para impedir essa loucura? Que tal enviar tropas para vigiar esses colonos e impedir que eles machuquem os não judeus?

  • Não bastou atacar o Freedom Theatre no começo da semana e prender dois de seus integrantes, entre os quais o personagem principal de Esperando Godot. O exército de Israel, insaciável, quis mais.
  • Então deteve, no checkpoint de Shave Shomeron, perto de Jenin, o estudante de arte dramática Rami Awni Hwayel, de 20 anos, que voltava para Ramallah depois de ensaiar.
  • Rami foi algemado e teve os olhos vendados. Por quê? O exército não soube responder. Para variar, claro.
  • Falta de água por aqui. Vocês sabem que, no verão, os colonos enchem suas piscinas, e, para permitir esse caprichozinho, Israel diminui a água enviada à Cisjordânia. Aqui em casa ficamos a seco esta semana. Hoje à tarde a torneira do jardim nem mesmo pingou quando a abri.
  • Relembrando: só 14% de toda a água que Israel roubou da Palestina vai para os palestinos. 86% vão para os colonos, que são em número muuuuuito menor do que os moradores das vilas e cidades da Cisjordânia.
  • Em Gaza, falta energia elétrica. As autoridades responsáveis anunciaram que o problema vem de uma falha num cabo vindo de Israel, e que o país ainda não tomou nenhuma providência para consertá-lo.

  • Pesquisando sobre a Síria para matéria que sairá no Brasil de Fato, vou mexendo nos peões sobre o mapa desta parte do mundo e percebo com clareza a jogada de Israel-EUA-OTAN de tentar se apoderar não apenas de países ricos em petróleo e gás como também de suas linhas de distribuição.
  • Dois coelhos numa cajadada, pois, além de apossar-se das riquezas naturais, Israel-EUA-OTAN evitam que elas cheguem até a China, impedindo o crescimento do país e tornando-o refém dos ocidentais.
  • Plano perfeito, não fosse a resistência nos países árabes para atrapalhá-lo. Mas a OTAN, que sofre derrota após derrota na Líbia, não aprende. Prepara-se para invadir a Síria, onde mais uma vez será vencida.
  • A Rússia já se posicionou contra, e a China a seguirá -- evitando o erro que cometeram no caso líbio.
  • Houve tempo em que os EUA eram mais poderosos. Na América Latina dos anos 1960-1970, por exemplo, foi fácil implantar ditaduras e dominar a cena política e econômica, além de lucrar com a exploração dos recursos naturais da região.
  • Agora eles descobriram que a tentativa de domínio pode ser acompanhada de lutas armadas. Assim as indústrias bélicas aproveitam e também tiram sua casquinha.
  • Ainda não descobriram, porém, como os árabes se organizam e quais são suas táticas de luta para impor derrotas seguidas a exércitos bem armados e com milhares de soldados.
  • A nova "Cruzada" ocidental também está destinada ao fracasso. Saravá!

terça-feira, 21 de junho de 2011

A queda do muro de Bil'in

Buldôzer israelense desmantela a cerca do lado "israelense" da vila.
Foto de Ali Abu Rahmah.

por Baby Siqueira Abrão
de Bil'in, Palestina


     A data de 21 de junho de 2011 talvez entre para a história de Bil’in como o dia em que o Muro do Apartheid que cerca a vila começou a cair. Os tratores do exército israelense iniciaram o desmantelamento do muro pela manhã. Vitória dos moradores, que ao longo de seis anos, toda sexta-feira, saem em passeata até ele, acompanhados de ativistas israelenses e internacionais. Esses mesmos moradores decidiram lutar também na justiça israelense e conseguiram, contra os prognósticos mais pessimistas, que a Suprema Corte de Israel decidisse, em 4 de setembro de 2007, a favor da ilegalidade da rota das três cercas paralelas – uma delas eletrificada – que subtraíam da vila 2.300 de seus 4.000 dununs (cada dunum equivale a 1.000 m2). A sentença da Corte estabeleceu que o confisco das terras não se devia a “razões de segurança”, como alegava o governo sionista, mas à expansão ilegal de colônias judaicas em território palestino.

As lutas de Bil’in no campo jurídico
     Apesar dessa decisão, os moradores de Bil’in ainda teriam de esperar mais quatro anos pelo desmantelamento do muro. Embora a Suprema Corte tivesse ordenado que Israel traçasse uma rota alternativa para a cerca, vários meses se passaram sem que o governo sionista a oferecesse. Por isso, em 29 de maio de 2008 os moradores encaminharam uma petição à justiça, acusando o Estado de Israel de desacato à Corte. Em resposta, o governo israelense apresentou outro projeto para o muro, segundo o qual a nova barreira ficaria a apenas 161 dununs de distância da primeira. O restante das terras confiscadas seria utilizada para a expansão das colônias judaicas.
     Contra esse projeto, os moradores encaminharam uma segunda petição à justiça. Em 3 de agosto de 2008 a Corte declarou que a rota alternativa oferecida por Israel não preenchia os requisitos estabelecidos na decisão de 2007 e ordenou que o Estado fizesse um novo plano. Apresentado em 16 de setembro de 2008, o plano devolvia aos moradores de Bil’in pouco mais de 404 dununs. O advogado da vila protestou, acusando Israel de violar a decisão da justiça pela segunda vez. Três meses depois a Corte deu ganho de causa a Bil’in, afirmando que o segundo itinerário alternativo estava em desacordo com a sentença de 2007. Em abril de 2009 foi apresentado um terceiro projeto, devolvendo aos moradores apenas 607 dos quase 2.000 dununs anexados a Israel em consequência do primeiro traçado do muro.
 Nesses seis anos de luta, Bil’in perdeu dois moradores, assassinados pelas forças de ocupação israelenses – os irmãos Bassem e Jawaher Abu Rahmah, 30 e 35 anos, respectivamente –, viu 140 pessoas serem presas (grande parte crianças) e mais de 1.400 feridas durante as manifestações. Uma conta muito alta em número, perdas e sofrimento.
Com a retirada das cercas, cujas função e altura são as mesmas dos muros pré-fabricados de cimento que Israel ergue para tomar as terras palestinas na Cisjordânia e isolar os habitantes das vilas e cidades, Bil’in recupera 1.200 dununs de sua área original. O desmantelamento começou a oeste, perto da torre onde ficam as câmaras que fiscalizam a vila noite e dia, e, segundo cálculos de Rateb Abu Rahmah, coordenador de mídia do comitê popular de Bil’in e vice-diretor acadêmico da Open University em Jericó, deve durar até julho.
Em 2010, os sionistas, já sinalizando o cumprimento (atrasado) da decisão da Suprema Corte, iniciaram o desmantelamento das cercas mas pararam em seguida. Agora, porém, talvez o trabalho avance, porque um muro de cimento está sendo construído longe das cercas. Esse será o novo muro de Bil’in, contra o qual vão se voltar, a partir da próxima sexta-feira, as manifestações dos pacifistas. “Continuaremos a lutar até que as terras voltem a seus legítimos donos e até o fim da ocupação israelense”, afirmou Mohammed Khatib, um dos líderes do comitê popular de Bil’in.

Ponto sem nó?
Resta saber se o governo sionista está mesmo cumprindo a decisão da Suprema Corte israelense – o que, dadas as atitudes costumeiras do primeiro ministro Benjamin Netanyhau, seria algo incomum – ou planeja retirar a cerca para que os soldados fiquem mais perto dos ativistas, durante as manifestações. Isso permitiria investidas corpo-a-corpo, ataques de água química fétida, bombas e balas num número maior de pacifistas, e mais facilidade nas prisões.
Uma vez que a repressão às vilas palestinas tem aumentado muito nos últimos meses, e mais ainda nas últimas semanas, não se pode desconsiderar essa hipótese. 

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Bombas, calor e asfixia em Bil'in

Bombas e água química de composição desconhecida são atiradas, pelo exército sionista, nos pacifistas palestinos. Foto de Rani Burnat.

Por Iyad Burnat
Tradução para o português e edição: Baby Siqueira Abrão
de Bil'in, Palestina


Apesar do calor intenso, dezenas de moradores de Bil'in marcharam novamente, junto com ativistas de Israel, Brasil, Grã-Bretanha, Holanda, Argentina e Espanha, rumo ao Muro do Apartheid, em protesto contra a anexação ilegal de 60% das terras da vila para a construção de colônias exclusivas para judeus. Como acontece em toda sexta-feira em vários locais da Palestina, os ativistas tentaram aplicar o direito internacional humanitário – segundo o qual as colônias constituem crime de guerra -, e o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, que em julho de 2004 decidiu pela ilegalidade do muro e de seu regime associado, os quais devem ser desmantelados. 
Empunhando a bandeira palestina e imagens dos mártires e prisioneiros da resistência popular, os manifestantes clamavam por liberdade e justiça, contra o apartheid e a ocupação, pela libertação de todos os presos políticos e por uma Palestina soberana e independente. Como de costume, o exército sionista abriu fogo antes de os manifestantes terem atingido o muro, disparando um tipo de gás lacrimogêneo muito mais prejudicial do que os comumente usados na Europa e nos EUA, lançando bombas sonoras e borrifando a todos com um produto químico líquido, verde, que ativistas têm chamado de "gambá" por causa do odor horrível. 
Dezenas de pacifistas sofreram de asfixia pela inalação do gás lacrimogêneo, agravada pelo calor, e em vários pontos as bombas atearam fogo às plantações agrícolas palestinas. 
O exército continuou a disparar contra os manifestantes mesmo quando eles tentaram apagar o fogo. 
Diplomatas nacionais e internacionais acompanharam os manifestantes, entre eles Walid al Mu'aqqad, embaixador da Palestina na Argentina, Munjid Saleh, do Gabinete do Ministério das Relações Exteriores, Horacio Wamba, embaixador argentino para a Palestina e Cecília Merchán, chefe da delegação de parlamentares argentinos que visitam os comitês populares de resistência pacífica contra a colonização e a ocupação ilegal de Israel.
In spite of the scalding heat, dozens of villagers from Bil’in marched once again together with activists from Israel, Brasil, Neetherlands, Great Britain, Argentina and Spain to the Apartheid Wall, in protest to the illegal annexation of 60% of the village’s land for the construction of Jewish-only settlements. As every Friday in various locations throughout Palestine, the activists attempted to implement international law, international humanitarian law – under which settlements constitute a war crime -, and the Advisory Opinion of the International Court of Justice with ruled in July 2004 that the illegal Wall and its associated regime should be dismantled.
Waving the Palestinian flag and images of martyrs and prisoners of the popular resistance, protestors chanted for freedom and justice, against Apartheid, and for the release of all political prisoners. As usual, the army opened fire at the protestors even before most had reached the Wall, shooting a type of tear gas that is considerably more harmful than the types ordinarily used in Europe or the US, throwing sound bombs, and spraying them with a chemical green liquid that activists have termed „shit“ or „skunk“ due to its nauseating odor which sticks to its target for days.
Dozens of activists suffered from tear gas inhalation, which is aggravated by the harsh summer heat, and in various places, crops caught fire and spread quickly. The army continued to shoot at protestors even while they attempted to put out the fires.
This week, the villagers were accompanied by national and international diplomats including Mr. Walid al Mu’aqqad, the Palestinian Ambassador to Argentina, Munjid Saleh from the Foreign Ministry’s Office, Mr. Horacio Wamba, the Argentinean Ambassador to Palestine, and Ms. Cecilia Marcha who heads a delegation of Argentinean Parliamentarians that are currently visiting popular committees and networks that participate in the growing Palestinian popular resistance against Israel’s illegal colonization.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Instituto sionista ameaça empresas que prestarem serviços à Flotilha da Liberdade

O Mávi Mármara, de bandeira turca, vítima do ataque naval israelense que deixou nove pacifistas mortos em 2010, também estará na Flotilha da Liberdade deste ano.

Baby Siqueira Abrão*
De Bil'in, Palestina

Não é somente o governo de Israel que promete ações contra a Flotilha da Liberdade, que sairá no final de junho com mais de 1.500 pacifistas levando ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, sob bloqueio sionista desde 2007. Depois do patético apelo de Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU, para que os governos evitem a saída de navios e cidadãos rumo à costa palestina, um instituto sionista sediado em Tel Aviv, Shurat HaDin Israel Law Center[1], pretende impedir a navegação das embarcações ameaçando as empresas de prestação de serviços com ações judiciais.

A primeira providência foi o envio de cartas às seguradoras marítimas da Europa e da Turquia. O Shurat HaDin advertiu-as de que, caso negociem seguros com “algum navio da Flotilha levando recursos materiais para o Hamás”, serão criminalmente responsabilizadas, nos tribunais dos Estados Unidos, por “ataques terroristas perpetrados” pelo partido político palestino – que não é e nunca foi uma organização terrorista, como a propaganda sionista afirma com estudada frequência. Além disso, ao contrário do que também afirma a propaganda sionista, nenhum dos navios da Flotilha carregará armas ou componentes para fabricá-las. De todo modo, a carta já assustou algumas seguradoras, uma vez que o sistema judiciário dos EUA, também sob influência sionista, pode prejudicá-las. A Lloyd’s, maior empresa de seguro marítimo do mundo, já adiantou que não negociará com os navios da Flotilha. E um acordo com a International Union of Marine Insurance (a associação internacional do setor de seguros marítimos) garantiu ao Shurat HaDin que as cartas serão enviadas  a todos os associados.

Detalhe: sem seguro marítimo, nenhum navio tem permissão para navegar.

O segundo passo foi uma carta à Inmarsat, única companhia que oferece serviços de telecomunicação por satélite às embarcações que cruzam aquela região, solicitando que não faça negócios com a Flotilha. É bom lembrar que em 2010 Israel cortou os sinais de satélite para os navios que faziam parte da frota, mas não conseguiu impedir que a rede de TV Al Jazeera e os pacifistas conectados à internet enviassem notícias da abordagem militar ao mundo todo. Isso porque, prevendo esse tipo de ação por parte dos sionistas, os coordenadores da Flotilha já haviam providenciado sinais alternativos.

Dessa vez, o objetivo é impedir a comunicação entre os navios e a opinião pública internacional, para que ninguém testemunhe o ataque das forças navais sionistas à frota. Nitsana Darshan-Leitner, diretora do Shurat HaDin, informou ter alertado a Inmarsat de que, se negociarem com os pacifistas, “estarão violando o American Neutrality Act, que proíbe ajuda a qualquer grupo que lute contra os militares de um país aliado. Como a Inmarsat tem escritórios nos Estados Unidos, é obrigada a respeitar essa lei".

Segundo Darshan-Leitner, o governo israelense, adepto de ameaças e soluções militares, costuma deixar de lado outros tipos de saída. “Não há aí nenhuma crítica ao exército”, afirma ela. “Apenas pensamos que a guerra à Flotilha não deve ser travada somente pelas Forças Especiais. Elas não vão lutar sozinhas. Existem várias outras maneiras de prevenir, adiar, limitar e afastar o perigo, e a força nem sempre é o melhor caminho”.

Só faltou explicar que tipo de perigo representam 1.500 pacifistas desarmados, dispostos a furar um bloqueio considerado ilegal pelo Direito internacional a fim de levar a mais de 1,5 milhão de pessoas tudo aquilo a que os sionistas não permitem o acesso, como medicamentos dentro do prazo de validade, alimentos nutritivos, brinquedos, material escolar e de construção, instrumentos médicos e cirúrgicos e até mesmo papel para receituários.





[1] Shurat HaDin Israel Law Center apresenta-se como defensor de direitos civis e “líder mundial no combate a organizações terroristas e aos regimes que as apóiam por meio de ações em tribunais de todo o mundo”, segundo informa seu website (www.israellawcenter.org). Costuma oferecer a estrangeiros tours de uma semana, ao custo de quase U$ 3 mil, mostrando os “sistemas de segurança” sionistas contra os “grupos terroristas palestinos” – mas apenas cita o Hamás, que não é uma organização terrorista. Esses tours entram em território palestino e convidam os participantes até mesmo a participar de incursões militares nas vilas palestinas, um modo sórdido de fazer turismo.



* com informações de Ron Friedman, The Jerusalem Post, Iara Lee e Shurat HaDin Israel Law Center.

sábado, 4 de junho de 2011

Bil'in: rememorando a Naksa

Passeata de sexta-feira rememorou os 44 anos da Naksa (ocupação sionista de 1967) e os 63 anos da Nakba (ocupação sionista de 1948).


Portuguese, English and Arabic versions
44 anos de ocupação violenta
Duas pessoas feridas, incluindo um repórter, e várias sufocadas na manifestação contra o muro e a ocupação realizada nesta sexta-feira na vila de Bil’in, Palestina. A manifestação rememorou os 44 anos da Naksa
Bil'in, Ramallah, 3/6/2011.
Duas pessoas ficaram feridas em consequência de asfixia grave causada pelas bombas de gás, de composição química nova e desconhecida, nos confrontos entre ativistas desarmados e o exército sionista.
À manifestação, convocada pelo Comitê Popular Contra o Muro e a Ocupação de Bil’in, compareceram moradores da vila e numerosos pacifistas de Israel, do Brasil e de outras partes do mundo.
Carregávamos bandeiras da Palestina, fotos de presos políticos palestinos e banners amarelos com a imagem do líder Marwan Barghouti. Marchamos pelas ruas de Bil’in repetindo palavras de ordem contra o muro e a ocupação, em árabe e em inglês, clamando pela unidade de todos, confirmando a necessidade de divulgação da resistência do povo palestino, exigindo a soltura de todos os presos políticos e liberdade para a Palestina.

Fomos até o muro, onde o exército sionista de ocupação já nos esperava. Os soldados montaram um posto de controle perto do portão oeste do muro, enquanto outros posicionavam-se ao longo do muro, juntamente com o caminhão-tanque carregado de água química. À medida que nos aproximávamos da cerca, o exército atirava bombas sonoras, balas de metal emborrachado e bombas de gás. O caminhão-tanque jogava a água química, afastando muitos manifestantes. Bombas e canisters (cilindros de metal cheios de gás) vinham de todas as direções, encurralando-nos. Uma bomba atingiu o jornalista Khaled Sabarneh, 42, da televisão iraniana. Joseph Issa Abu Rahma, 41, teve severas dificuldades respiratórias e houve vários casos de asfixia, atendidos pelos paramédicos. As bombas também atingiram as áreas próximas ao muro, cheias de oliveiras, e provocaram fogo em alguns pontos.

Os Moradores Contra o Muro e a Ocupação de Bil'in convidam os palestinos locais e da Diáspora a participar das atividades do 44o. aniversário da Naksa [a ocupação provocada pela Guerra dos Seis Dias, de 1967], na Cisjordânia, na Faixa de Gaza, no front palestino das fronteiras, nas capitais árabes e de outras partes do mundo, a fim de confirmar a adesão ao direito de retorno, ao fim da ocupação, ao estabelecimento do Estado palestino independente e soberano com capital em Jerusalém. Esses são os objetivos pelos quais vêm lutando, há 63 anos, os palestinos, a população árabe e internacional.

Comitê Popular Contra o Muro e a Ocupação de Bil'in
44 years of violent occupation
Two persons injured, including a reporter, and dozens deeply suffocated in the demonstration against the wall and the 44 years of occupation
Bil'in, Ramallah, 3/6/2011. Two citizens were injured as a result of severe asphyxia caused by the heavy tear gas in the clashes that took place in the village of Bil'in on this Friday.
To the demonstration, called by the Popular Committee Against the Wall in Bil'in, came village people along with dozens of peace activists, Israelis and foreigners in solidarity. People held Palestinian flags, said slogans and marked the 10th anniversary of the martyrdom of the brother of Jerusalem, Faisal Husseini, and pictures of martyrs in the Israelian jails, and Abo Rahma, and yellow banners with pictures of the leader Marwan Barghouti.

The demonstrators walked on village streets singing national slogans, calling for unity, confirming the need for a resounding Palestinian resistance, asking the release of all prisoners and freedom for Palestine.

The activists walked towards the wall, where the military force of occupation were waiting. There were a “checkpoint” with soldiers near the gate of the western side of the wall. A large number of soldiers deployed on the route of the wall, and the skank truck sprayed water mixed with chemicals. As the demonstrators transit towards the wall, the army fired sound bombs, rubber-coated metal bullets and tear gas. The truck sprayed protestors with chemical water. Bombs ans canisters were throwed to all directions and one of them injuried the journalist Khaled Sabarneh (42 year), Iranian television reporter. Joseph Issa Abu Rahma (41 year) had severe difficulty in breathing, and there were dozens of cases of suffocation. The bombs burned the areas adjacent to the wall, planted with olive trees.

People Against the Wall from Bil'in invite all the sons of our Palestineand the Diaspora to participate in the activities of the 44th
anniversary of the Naksa [the 6 Days War occupation, 1967] in West Bank and Gaza Strip, at the Palestinian front on the borders, and in Arab and foreigner capitals, to confirm our adherence to the right of return, the end of the occupation, the establishment of an independent Palestinian state with its capital in Jerusalem. Those are the issues for which Palestinian-Arab-international people have been fighted along all those 63 years.

Popular Committee Against the Wall and the Occupation from Bil'in
أهالي بلعين يحيون ذكرى النكسة ال 44
إصابة مواطنين بجروح بينهم صحفي والعشرات بالاختناق الشديد في المسيرة الاسبوعية
3/6/2011
بلعين- رام الله: إصابة مواطنين بجروح والعشرات بحالات الاختناق الشديد نتيجة استنشاقهم للغاز المسيل للدموع جراء المواجهات التي جرت في قرية بلعين إلى جانب نشطاء سلامومتضامنين أجانب، اثر قمع قوات الاحتلال الإسرائيلي للمسيرة الاسبوعية المناهضة للجدار والاستيطانفي قرية بلعين، إحياء لذكرى النكسة ال44.
وشارك في المسيرة التي دعت إليها اللجنة الشعبية لمقاومة الجدار والاستيطان في بلعين، أهالي قرية بلعين، إلى جانب العشرات من نشطاء سلام إسرائيليين ومتضامنين أجانب.
ورفع المشاركون الأعلام الفلسطينية، وشعارات تحيي الذكرى العاشرة لاستشهاد قائد المقاومة الشعبية ابن القدس الأخ فيصل الحسيني، وصور الشهيدين جواهر وباسم أبورحمة، ورايات صفراء عليها صور القائد النائب مروان البرغوثي.
وجاب المتظاهرون شوارع القرية وهم يرددون الهتافات الوطنية، الداعية إلى الوحدة، المؤكدة على ضرورة التمسك بالثوابت الفلسطينية، ومقاومة الاحتلال وإطلاق سراح جميع الأسرى، والحرية لفلسطين.
وتوجهت المسيرة نحو الجدار، حيث كانت قوة عسكرية من جيش الاحتلال الإسرائيلي قد عملوا حاجز بشري من الجنود بالقرب بوابة الجدار من الجهة الغربية من الجدار، وعدد كبير من الجنود منتشرين على مسار الجدار، وسيارة كبيرة لرش المتظاهرين بالمياه العادمة النتنة الممزوجة بالمواد الكيماوية الممزوجة باللون الازرق، وعند محاولة المتظاهرين العبور نحو الجدار ، قام الجيش بإطلاق قنابل الصوت والرصاص المعدني المغلف بالمطاط والقنابل الغازية ، ورش المتظاهرين بالمياه العادمة النتنة الممزوجة بالمواد الكيماوية ، نحوهم من جميع الاتجاهات، مما أدى إصابة الصحفي خالد صبارنة (42 عام) مراسل التلفزيون الإيراني بقنبلة غازية بالرجل، ويوسف عيسى أبو رحمة (41عام) باختناق شديد، والعشرات بحالات الاختناق والتقي الشديدين، وحرق مساحات محاذية للجدار مزروعة بأشجار الزيتون.
ودعت اللجنة الشعبية لمقاومة الجدار والاستيطان في بلعين جميع أبناء شعبنا الفلسطيني في الوطن والشتات إلى المشاركة في فعاليات الذكرى الـ44 للنكسة، وخاصة الفعاليات المركزية في الضفة الغربية وقطاع غزة وفي الداخل الفلسطيني وعلى الحدود مع فلسطين التاريخية والعواصم العربية والأجنبية، للتأكيد على تمسكنا بحق العودة، والتأكيد على أن قضية اللاجئين هي قضية فلسطينية عربية دولية، والمطالبة بإنهاء الاحتلال وإقامة الدولة الفلسطينية المستقلة وعاصمتها القدس الشريف.
لمزيد من المعل




domingo, 24 de abril de 2011

Cartas da Palestina 1



Bil'in, 22 de abril de 2011.


Impossível usar palavras para explicar o que senti e vivi hoje à tarde, na passeata contra o muro e a ocupação aqui em Bil'in, Palestina ocupada. Tem de viver a experiência pra saber como é. Você vai andando pela estrada estreita e asfaltada que corta o solo pedregoso do vilarejo quando de repente ouve um estampido e, com um pouco de sorte, vê um rastro de fumaça no céu. Acompanha-o com o olhar e nota, à frente, uma bomba de gás pimenta + outras substâncias químicas que ninguém sabe quais são. Se não tiver sorte, a bomba cai a sua frente, do seu lado, atrás ou em você. Aí, só seu metabolismo sabe o que acontecerá: se você escapa dessa, desmaia, cai ou enfarta.

Você sabe que o inimigo está em algum lugar, mas... onde? As bombas vêm da esquerda -- se você estiver indo em direção à cerca com que Israel divide a vila --, mas o inimigo esconde-se do outro lado da elevação que margeia a estrada, do lado esquerdo. Subi a elevação para tentar vê-lo, mas não consegui ir muito longe. As bombas me cegavam de fumaça e lágrimas, a garganta estava seca, o pulmão ardia, a cabeça zonzeava. Segui o conselho de um colega jornalista, fotógrafo francês, e dei meia-volta.

Mas então o ataque das bombas diminuiu de intensidade e decidi caminhar diretamente para a cerca, onde os soldados israelenses já se postavam, metralhadoras em punho. Um grupo de franceses e uma dinamarquesa me acompanharam. Carregávamos as bandeiras dos nossos países para mostrar que, se eles nos acertassem, haveria um conflito internacional, ao menos na diplomacia.

Já na cerca, comecei a conversar com eles, em inglês. Pedi para que dissessem aos colegas à nossa esquerda que parassem de atirar. Não estávamos armados; fôramos até ali em missão de paz. Queríamos tê-los como vizinhos, não como inimigos. Queríamos, todos, viver bem e com dignidade. Queríamos que eles, em vez de armas, carregassem filhos nos braços (são todos muito jovens) e soubessem que o presente e o futuro deles e das gerações seguintes seria diferente, sem violência nem violação de direitos.

Palavras sem sentido para muitos dos soldados -- aqueles aos quais a lavagem cerebral já fez efeito. Mesmo assim, apostei na humanidade deles, isto é, naquilo que existe de solidário e respeitoso dentro de cada um. Um senhor francês me seguiu no apelo. Ao menos eles não atiraram em nós. E pararam de jogar a água fétida, de cuja composição não temos a mínima ideia.

Quando voltávamos pela estrada, na direção da cidade, os soldados da esquerda voltaram a atacar, dessa vez ainda mais. Quando saí do meio da fumaça, achei que fosse cair. As duas ambulâncias que nos acompanhavam ligaram as sirenes e avançaram. Já tinham atendido outros ativistas, intoxicados. Um foi parar no hospital e ainda não tenho notícias dele. Carros de ativistas chegavam, para ajudar quem não aguentasse mais seguir a pé. Fui salva por um Fiesta vermelho, modelo antigo, batido e com pintura velha, dentro do qual um senhor e seus dois filhos carregavam dois recipientes de isopor branco com tampa azul. Era sorvete. Um ativista palestino, ao me ver pálida, de olhos vermelhos, me deu um sorvete na hora. O gelado na boca, o gelo derretido, o sabor, o açúcar, me deram glicose e aliviaram meu mal-estar. Repassei a casquinha para uma amiga italiana, que subia a ladeira tão mal quanto eu surgira ali, momentos antes.

Não batemos em retirada. Ficamos ali, aguardando os palestinos, que pareciam muito à vontade em meio à fumaça dos gases e aos jatos de água de cheiro insuportável. Desafiavam os soldados -- que, diante da numerosa participação de ativistas internacionais, não usaram balas de verdade nem de borracha, como costumam fazer --, levavam chutes, coronhadas, eram derrubados. E tudo isso por quê? Porque queriam entrar nas próprias terras, confiscadas pelos governos israelenses.

Inspirado na praça Tahir, Abdullah subiu num dos caminhões do exército israelense, para surpresa dos soldados. Conseguiu escapar. Dessa vez. Fiquei muito brava. A Palestina precisa de líderes, não de mártires. Já chega de mortes. Sem liderança não se constrói um Estado. E o palestino está chegando, ali, na curva para setembro.